Fim de ano com literatura

O ano termina com o DVD que a Biscoito Fino lançou contendo os 10 curtas da Bem-te-vi Filmes, de Fernando Sabino e David Neves. Além de obras memoráveis, como O poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade sobre Manuel Bandeira, há o histórico O fazendeiro do ar, sobre Drummond, e preciosidades sobre Pedro Nava, Vinicius, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, João Cabral, entre outros. Imperdível. O que poderia ser melhor é o curta que vem como extra, sobre o próprio Sabino, em que depoimentos de e sobre Fernando Sabino se alinham muito convencionalmente, e em clima chapa-branca, pelos políticos que sobram na conversa.
Beijos em todos, feliz 2007, com muita arte e cultura!

Clara Arreguy, domingo, dezembro 31, 2006. 0 comentário(s).

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Singer sublime

Prêmio Nobel, o escritor Isaac Bashevis Singer compõe como ninguém painéis sobre a vida dos judeus na Europa do século 20 e na América, após as perseguições anti-semitas. Em Shosha, seu romance de 1978 (ano em que recebeu a láurea máxima da literatura mundial), editado este ano pela Francis, o narrador é um jovem escritor, que se enfronha em uma turma de intelectuais judeus de Varsóvia nas vésperas da invasão da Polônia. Ele, os amigos e milhões de seu povo vivem as angústias da iminência do holocausto e, enquanto debatem o que fazer, alguns defendendo a fuga, outros aceitando passivamente o que o destino lhes reservar, experimentam a fé e a descrença, amparados nas reflexões de sionistas, hassidistas, comunistas, céticos e demais posturas que permeavam seu meio. A escrita à antiga molda mais uma obra-prima de Singer, um dos grandes autores do século passado.
Beijos!

Clara Arreguy, segunda-feira, dezembro 25, 2006. 1 comentário(s).

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Um certo Brasil

Assisti ontem, em BH, onde estou passando as festas de Natal, ao brasileiro O céu de Suely, de Karim Aïnouz (o mesmo de Madame Satã) e gostei muito. O filme vem sendo bem recebido pelo público (em Brasília está em cartaz há mais tempo e era o mais votado pelos internautas do Correio Braziliense como melhor nacional do ano). Com razão. A história de uma moça de 21 anos que volta de São Paulo para o interior do Ceará com seu bebê no colo, o abandono do namorado e o sonho de ampliar horizontes ganha interpretação comovente de Hermila Guedes. Há ainda a presença marcante de João Miguel (talento recentemente revelado por filmes como Cinema, aspirinas e urubus, entre outros), um elenco pouco conhecido mas vigoroso, e um retrato de um Brasil nada glamouroso em tempos globalizados, pobres e de poucas perspectivas.
Beijos e feliz Natal!

Clara Arreguy, domingo, dezembro 24, 2006. 0 comentário(s).

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Fale com ela

Na semana passada, uma amiga minha passou mal e teve que ir a um hospital particular, que atende por seu convênio. Foi bem tratada, medicada, resolveram seu problema, mas ela ficou incomodada porque o médico não falava com ela. Não explicava nada, não a tranqüilizava. Quando comentamos o assunto com outras pessoas, percebemos que, aqui em Brasília em especial, mas em toda parte, cada vez menos os médicos conversam. Como se pacientes não fossem sujeitos e sim objetos ? bem tratados, mas objetos.
E fomos ampliando a compreensão de que não são apenas os médicos. Em todos os campos, as conversas vão sendo substituídas pela burocracia. Não se tem tempo nem paciência para falar e ouvir. A linguagem, que distingue os seres humanos diante de outros animais, perde mais e mais espaço. A comunicação, então, que é a linguagem funcionando para ligar um ao outro, não se completa. Nunca é demais voltar aos serviços falsamente chamados de Fale Conosco. Não falam conosco, não nos ouvem. Põem máquinas para conduzir nosso monólogo telefônico, de opção em opção, até que os "minutinhos" que aguardamos façam explodir os limites da paciência de qualquer monge.
Falar com o outro é ato de amor. Ouvir o outro é ato de amor. Conversar, dar atenção, entender, compreender, responder ? são todos verbos que se conjugam com a solidariedade, com a humanidade, que revivem as características pacificadoras de que os humanos são capazes.
Há um filme lindo de Pedro Almodóvar chamado Fale com ela, no qual um enfermeiro cuida de uma moça em coma e a trata não como pedaço de carne inconsciente, mas como sujeito ? doente, fora do ar ou desligado, mas sujeito. A palavra conduz o afeto, chama à vida, traduz o amor. A palavra dita ? e sobretudo ouvida ? cura. A moça acorda.
Para 2007, desejo a todos os leitores e amigos que prestem atenção nos outros e que os outros lhes prestem atenção. Que os prestadores de serviço descubram que o maior diferencial que podem oferecer ao cliente é um serviço de atendimento ao consumidor que fale com as pessoas. Gente com gente. Gente que ouça o que é dito e responda. Gente que olhe nos olhos (se for por telefone, que ouça com os ouvidos). Que as relações sejam mais humanas e que as máquinas não substituam ninguém. Tudo de bom!

ps - publicado no Correio Braziliense em 22/12/06

Clara Arreguy, quarta-feira, dezembro 20, 2006. 0 comentário(s).

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Duas novidades musicais

Estou ouvindo sem parar o disco de Yusuf Islam, antes conhecido como Cat Stevens, um dos meus queridos dos anos 70. O que mais impressionou foi a vitalidade das composições novas e a força na interpretação de Don't let me be misunderstood, lembram do Santa Esmeralda?
O outro que estou ouvindo muito é o duplo do Wagner Tiso, que comemora 60 anos de idade reunindo a turma do Som Imaginário e amigos como Milton Nascimento, Gal Costa, Cauby Peixoto e Maurício Tizumba. Quantos sons inimgináveis!
Beijocas!

Clara Arreguy, terça-feira, dezembro 12, 2006. 0 comentário(s).

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Quanto clichê

Por mais edificantes que se pretendam certos dramas de cinema, há limite até pra ser bonzinho. Um enfiado de clichês marca Ela dança, eu danço, em que um delinqüentezinho (e dançarino) de rua tenta uma oportunidade numa escola de artes depois de ter ajudado a depredá-la numa noitada. Branco criado num bairro pobre de pretos, o "herói" do filme supera tudo com o amor de uma patricinha (de quem se torna partner num show de dança moderna) e o esforço de se disciplinar, rejeitar os amigos marginais, até alguém morrer tragicamente e todos encontrarem um rumo. Argh.
Ah, salva-se a música.
Beijos!

Clara Arreguy, segunda-feira, dezembro 11, 2006. 0 comentário(s).

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Investida de Luiz Vilela

A nova investida literária de Luiz Vilela, o grande escritor mineiro (de Ituiutaba), autor de obras-primas como Tremor de terra e Cabeça, acaba de chegar às livrarias: Bóris e Dóris, uma novela curta contendo o diálogo de um casal. Com a mesma agilidade dos diálogos do autor, a narrativa e os personagens, no entanto, não envolvem como outras construções de sua lavra. A melhor notícia vem, entretanto, da Record, que publicou a novela: toda a obra de Vilela será relançada pela editora.
Beijos!

Clara Arreguy, quarta-feira, dezembro 06, 2006. 0 comentário(s).

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Comedinha romântica

Está certo, Russell Crowe não tem exatamente o perfil de comédia romântica, mas mesmo assim não chega a comprometer no papel de um homem de negócios detestável em Um bom ano. Inglês, ele herda de um tio charmoso (Albert Finney) uma vinícola na França, quer passar a régua por lá e fazer mais dinheiro, mas esbarra em questões humanas e numa paixão que nunca experimentara e que vai mudar sua vida. Está certo, também, que o roteiro é previsível e que nada chega a surpreender, mas a construção do filme (de Ridley Scott) corre sem maiores percalços, com boas cenas de flashback, o menino e o tio num passado idílico. Vale a sessão da tarde.
Beijins!

Clara Arreguy, terça-feira, dezembro 05, 2006. 0 comentário(s).

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Almodóvar antes tarde

Acabou que não falei do novo filme de Pedro Almodóvar, Volver, simplesmente porque perdi na época da estréia e só outro dia tive de tempo de ir ao cinema sanar a falta. Não sou daquelas que acham que tudo que o cineasta espanhol faz é genial, mas o acho grande, e sempre me tocou profundamente sua capacidade de tratar a mulher e as questões a ela atinentes. É o caso de Volver. Com aquele misto de doçura e amargor, Almodóvar entrecruza histórias de mães, filhas, irmãs, vizinhas, um pouco demonizando os personagens masculinos e perdoando tudo às mulheres - a seu modo -, mas toca em feridas sempre abertas sobre as queixas que ambos os sexos despertam nas pessoas sensíveis. E que cores!
Beijocas!
PS - A Penélope Cruz finalmente me convenceu como atriz. Está deslumbrante.

Clara Arreguy, segunda-feira, dezembro 04, 2006. 2 comentário(s).

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Festival infantil

Participei, aqui em Brasília, de um festival que ocorreu em vários outros lugares, como BH, Rio, São Paulo etc., de cinema infantl, produzido pela Carla Camurati e outros. Minha "atuação" foi no projeto Pequeno Jornalista e consistia em ver um filme com a meninada (cerca de 120 crianças de escolas daqui) e depois conversar com eles sobre como deveriam fazer uma matéria para um jornal sobre o filme. Era As aventuras de Azur e Asnar, uma animação francesa sobre dois meninos, um ocidental e um árabe, criados como irmãos e separados por diferenças culturais eociais. Além do ótimo papo sobre a resenha que "orientei-os" a fazer, valeu pela beleza e sensibilidade do desenho, que trata de um tema tão atual de forma poética e cheia de ação. Valeu por tudo.
Beijos em todos!

Clara Arreguy, domingo, dezembro 03, 2006. 0 comentário(s).

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Saramago delicado

O novo livro de José Saramago, As pequenas memórias, é uma narrativa curta do Nobel de literatura sobre sua infância na aldeia de Azinhaga e na Lisboa dos anos 20 e 30. Repleto de imagens comoventes da parentada, de primos e primas com quem ele viveu as primeiras (e inesquecíveis) emoções de descoberta, não usa o costumeiro estilo livre de escrita que marca seus romances, mas uma narrativa mais direta, bem-humorada, para contar casos singelos. O machucado, a brincadeira, o jeito de ser de um vizinho. O nome do relato resume aquela definição de "pequeno" que outros memorialistas já exploraram - vide o recente A altura e a largura do nada, em que Ignácio de Loyola Brandão revisita a Araraquara de sua infância.
E beijocas!

Clara Arreguy, sexta-feira, dezembro 01, 2006. 0 comentário(s).

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