Relações inesperadas

No filme dinamarquês Além do desejo, uma mulher insatisfeita com o casamento com um jovem médico sai de casa e vai morar na periferia, no mesmo prédio que um travesti. Após percalços e desentendimentos, eles acabam se envolvendo. Primeiro porque ele tenta o suicídio e ela o salva. Depois, quando o ex dela lhe aplica uma surra, e é a vez de o travesti vir em seu socorro. A atração mútua não se explica por modelos conhecidos de relação. Charlotte é uma mulher forte, dominadora, senhora de si, enquanto Veronica é frágil, nada masculina, insegura quanto ao corpo e aos sentimentos. São duas almas que procuram atender a anseios profundos, mas que não sabem em que bases isso pode se dar. Num clima de drama e perplexidade, Além do desejo propõe reflexões interessantes - e o faz com emoção.

Beijinhos!

Clara Arreguy, terça-feira, agosto 28, 2007. 0 comentário(s).

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Dois grandes nomes

Custei muito a ler, mas não por culpa do livro, e sim pela falta de tempo e a necessidade de intercalar leituras de trabalho, o romance O paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa, relançamento que conta a história de duas grandes personalidades do século 19, o pintor Paul Gaughin e sua avó, Flora Tristan. Ele, mais conhecido, foi um revolucionário não apenas nas tintas do impressionismo, cuja genialidade esteve ombro a ombro com Van Gogh e outros contemporâneos, mas também pelo comportamento, pela vida que levou, procurando romper com hipocrisias, com as amarras da sociedade ocidental repressora. Ela, menos conhecida, foi uma mulher especial. Inaugurou o feminismo avant la lettre, pregou um socialismo em que mulheres e trabalhadores deveriam se unir para superar as opressões do capitalismo nascente. O romance alterna uma e outra história, que se passsam com poucas décadas de separação (neto e avó não chegaram a se conhecer) e mostram vidas difíceis, enormes sofrimentos e conquistas que redundaram em ganhos para as gerações seguintes. Ambos morreram após doenças muito sofridas, ela aos 41, ele aos 53 anos.

Beijos!

Clara Arreguy, domingo, agosto 26, 2007. 0 comentário(s).

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É preciso contar

É preciso contar a história de Jean Charles de Menezes, o brasileiro assassinado no metrô de Londres pela Scotland Yard, que, numa sucessão de atos estúpidos, o confundiu com um terrorista e o imobilizou e executou com 11 tiros. Por isso, o escritor Ivan Sant'Anna, especialista em investigação de fatos reais transformados em livro, acaba de fazê-lo. O resultado está no ótimo Em nome de Sua Majestade - A morte de Jean Charles de Menezes no metrô de Londres. Tal como fez no excelente Plano de ataque, em que investigou a fundo os eventos e personagens do 11 de setembro, aqui o escritor entrevistou pessoas, foi à Inglaterra, a Gonzaga (terra de Jean, no interior mineiro), conversou, leu, ouviu e apurou tudo, para nos traçar um retrato da vítima e contar por que ele foi morto daquela maneira. Como a polícia inglesa o confundiu com um terrorista que morava no mesmo prédio que ele, como tentou emplacar uma versão falaciosa, desmontada graças à coragem de três pessoas, e como, mesmo com a verdade vindo à tona, os culpados foram todos absolvidos.

Beijos!

Clara Arreguy, segunda-feira, agosto 20, 2007. 0 comentário(s).

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Tudo em pizza

Com o ótimo nome de Pizzaria Brasil, o humorista Cláudio lança a revistona em que coleciona seus cartuns e charges dos últimos 30 anos da vida política nacional. Mais que isso, faz um verdadeiro compêndio de história e economia, ao alinhar, ao lado dos desenhos, textos curtos sobre a conjuntura da época, identificação dos personagens que hoje já saíram da cena etc. Pena que deixe de fora algumas informações mais recentes, e positivas, sobre o governo Lula, numa opção ideológica legítima do autor. O importante é não perder a piada. Neste caso, trata-se de passar a limpo a história do Brasil desde a ditadura - o subtítulo é Da abertura política à reeleição de Lula. Em que pesem os defeitos, as qualidades falam mais alto.

Beijocas!

Clara Arreguy, sexta-feira, agosto 17, 2007. 0 comentário(s).

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Henfil e seus irmãos

Três irmãos de sangue é o documentário que estréia amanhã em várias capitais. Conta a história de Henfil, Betinho e Chico Mário, desenhista, sociólogo e músico, irmãos, hemofílicos, contaminados pela Aids em transfusões de sangue, grandes lutadores contra a ditadura e pela democracia no país. Em depoimentos de amigos e familiares, imagens de arquivo e gravações, o filme mostra a riqueza que foi a vida dos três, repleta de talento e solidariedade. Henfil, o pai da Graúna e do Fradim, foi genial humorista e ativista; Chico Mário, um virtuoso violonista e compositor de mil gêneros, do chorinho à sinfonia; e Betinho, depois de símbolo dos exilados pelo regime militar, ajudou a fundar a consciência cidadã, com a criação da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, que deu início ao combate sistemático à fome. O filme de Ângela Patrícia Reiniger é pura emoção. Imperdível!

Mil beijos!

Clara Arreguy, quinta-feira, agosto 16, 2007. 0 comentário(s).

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Pequenas atitudes

Em Garuva, município de 13 mil habitantes no interior de Santa Catarina, a gestão da Secretaria de Saúde que assumiu em janeiro de 2005 encontrou a seguinte situação: havia uma máquina de eletrocardiograma alugada que permitia, pelo contrato, 25 exames mensais. Os excedentes eram pagos ao final do mês. Na primeira conta, os exames a mais foram oito. No seguinte, a mesma coisa. A secretária pediu para verificar o contrato e descobriu que o número correto seriam 35 eletros mensais, não 25. Em dois anos, havia mais de 200 exames excedentes pagos indevidamente. Ela negociou para atender à demanda reprimida do município, que era de 220 exames, e zerou o problema naquele momento.
Só que o contrato terminou em março. Para renovar, seriam R$ 6 mil anuais. A secretaria procurou saber e descobriu que uma máquina custava R$ 3.600. Foi comprada. Não mais aluguel de máquina. Hoje, Garuva faz mais de 120 eletros por mês, não há demanda reprimida.
O mesmo se deu com o oxigênio. Com o contrato vigente, o município pagava R$ 64 por metro cúbico. A secretária achou caro. Propôs fazer uma licitação. Os funcionários tentaram demovê-la: são menos de R$ 8 mil por ano, é o tipo de despesa que dispensa licitação, pode ser feita a compra direta (tomam-se três preços, contrata-se o menor). Não, estava caro. Depois de licitado, o custo do oxigênio passou a ser de R$ 18 por metro cúbico.
Com essas e outras economias feitas na base do pequeno, do controle de tíquetes de alimentação do funcionalismo, dos gastos com combustível contabilizados em planilha, da licitação para aquisição de medicamentos (16 empresas se candidataram no processo), Garuva tem sobras e pode investir. Aumentou a oferta de remédios, comprou ar-condicionado para os consultórios médicos e odontológicos, pintou e mandou fazer calçadas em frente aos postos de saúde, adquiriu computadores, enxoval para salas de observação, providenciou treinamento para o pessoal, aumentou a oferta de exames de laboratório, construiu um posto para atendimento de urgências e emergências.
Garuva é uma pequena cidade, de população pouco numerosa, mas de grandes atitudes, que deveriam servir de exemplo para gestores públicos de todo o país. Quem diz que não há o que fazer não sabe o que diz.

Publicado no Correio Braziliense em 10/08/2007

Clara Arreguy, segunda-feira, agosto 13, 2007. 0 comentário(s).

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Dois humanistas

Coincidência ou não, na noite de ontem (sábado) o Canal Brasil emendou dois documentários não só interessantes como importantes: primeiro, Encontro com Milton Santos ou a globalização vista do lado de cá, de Sílvio Tendler, sobre a trajetória do geógrafo brasileiro perseguido durante a ditadura e que, otimista convicto, lhe concedeu rica entrevista antes de morrer, em 2001. Uma aula de economia, política e cidadania, por um personagem que os brasileiros deveriam conhecer melhor. O outro, com características semelhantes (otimismo, humanismo e pouco reconhecimento pelos brasileiros) foi Sérgio Vieira de Mello, morto num ataque à sede da ONU, no Iraque. O documentário que passou, dirigido por Simone Duarte, chama-se A caminho de Bagdá e mostra a importância da atuação do brasileiro, funcionário das Nações Unidas, que ajudou na reconstrução de países saídos de guerras terríveis, como Moçambique, Camboja, Timor Leste e no próprio Iraque. Ele atuava na repatriação de refugiados e sabia negociar com respeito e humanismo, nas situações mais adversas. Dois personagens que merecem nosso aplauso, ainda que póstumo.

Beijos!

Clara Arreguy, domingo, agosto 12, 2007. 0 comentário(s).

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100 anos de sabedoria

Oscar Niemeyer vai completar 100 anos este ano e, para homenageá-lo, em Belo Horizonte está em cartaz uma exposição que ocupa a Grande Galeria do Palácio das Artes e o Museu de Arte da Pampulha (projeto dele). Só fui à do PA, mas, embora pequena e de curto acervo, não deixa de ser um manancial de sabedoria. Estão ali à mostra fotos de trabalhos dele, desenhos, rabiscos, anotações, maquetes, livros, fotos, recortes e uma linha do tempo que mostra, em esboços desenhados pelo próprio arquiteto, os principais projetos, no Brasil e no exterior, que fizeram dele o nome na arquitetura moderna em todo o mundo. Niemeyer, sobretudo, é um humanista, que explica continuar sendo comunista, quase centenário, por enxergar a necessidade de lutar pela igualdade, contra as injustiças, por defender que as pessoas não passem pela vida sem transformar o mundo. Suas frases e trechos de entrevistas ilustram toda a mostra, com a clarividência de quem propõe que a arquitetura só faz sentido se incluir o social.

Ele é demais! e Beijos!

Clara Arreguy, sábado, agosto 11, 2007. 0 comentário(s).

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Chico, sempre Chico

Para quem perdeu o show de Chico Buarque baseado no novo disco, Carioca, foi lançado, em CD duplo e DVD, Carioca ao vivo. São 28 faixas, que, os medleys, abarcam 33 canções dele ou de seu repertório. O disco novo está presente em faixas inspiradíssimas, mas há também inúmeros clássicos de várias fases de sua carreira. No DVD, percebe-se a intenção de valorizar não apenas o apelo de um ídolo amado há 40 anos pelo país, mas também os músicos de alto nível que o acompanham - cada um ganha destaque em uma faixa entre os extras. Pontos altos: a parceria entre Chico e seu baterista preferido, Wilson das Neves, num sambinha delicioso que dá direito a samba no pé e coreografia de jogada de futebol; e a canção Os ratos, um rap moderno em melodia e arranjos, que retoma o tema de Pivete e O guri, tão caro ao artista.

Beijins!

Clara Arreguy, quarta-feira, agosto 08, 2007. 0 comentário(s).

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Ação exacerbada

Se você só gosta de cinema de arte, fuja de Duro de matar 4.0. Se aprecia filmes de ação, entretenimento sem compromisso nem com mensagem nem com credibilidade, vai curtir. Bruce Willis é John McClane, aquele cabra difícil de derrubar desde o primeiro da série. Agora, mais velhusco mas com o vigor usual, enfrenta bandidos que querem simplesmente tomar todos os sistemas de energia, transportes e comunicação da América. McClane tem a missão de proteger um hacker que, sem querer, ajudou os terroristas e agora dá dicas para o FBI combatê-los. Não se espante com as tiradas mais sacadas que já viu na tela. Bom, nem tanto. Para a criatividade dos roteiristas de ação não há limites.

Beijocas!

Clara Arreguy, quarta-feira, agosto 01, 2007. 0 comentário(s).

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