Lição de história e jornalismo

Os livros de Fernando Morais são sempre lições de história e jornalismo. Acabo de ler "Os últimos soldados da Guerra Fria" (Companhia das Letras), uma reportagem sobre a operação de espionagem montada por Cuba para infiltrar agentes junto às organizações de extrema direita de Miami que andavam promovendo atos de terrorismo em solo cubano.

Foi assim: diversas dessas organizações de exilados cubanos são legais, recebem verbas como entidades filantrópicas ou sem fins lucrativos, mas agiam para promover atos como colocação de bombas em alvos turísticos de Cuba, visando sabotar a fonte de renda que sobrou ao país com o embargo norte-americano e o fim da União Soviética.

Agentes secretos cubanos, então, começaram a se passar por dissidentes, migrar para os Estados Unidos e se infiltrar nessas organizações, conseguindo assim informações que permitiam ao governo de Cuba evitar atentados - alguns dos quais feitos por mercenários, inclusive com mortos em alvos como hotéis de Havana, Varadero etc.

O livro de Fernando Morais conta a história que passava como notinhas em pé de página na imprensa, até que cinco dos agentes da chamada Rede Vespa foram capturados pelo FBI e condenados a penas pesadas por espionagem. Já os promotores dos atos terroristas seguiram a agir livremente. O escritor entrevistou uma série de personagens dessa história incrível, descobriu até operação secreta de ajuda entre o FBI e a inteligência cubana, troca de documentos, etc.

Mais uma pesquisa altamente informativa e extremamente bem apurada, leitura deliciosa para quem gosta de bom jornalismo. E como ele anda em falta!

Beijos!

Clara Arreguy, sexta-feira, março 25, 2016. 0 comentário(s).

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Prosa poética teatral - isso é ótimo

Lemos e discutimos no nosso grupo de leitura de autores de Brasília a coletânea de contos "Beijando Dentes" (Record), de Maurício de Almeida, um antropólogo que mora há não muitos anos na capital e que, com essa obra, ganhou o Prêmio Sesc de Literatura em 2007.

Merecido prêmio, por sinal. O conjunto de 13 contos que compõe o livro traz algumas marcas muito próprias do autor, das quais destaco duas: a primeira, um tom teatral dado não apenas pela força dos diálogos, mas pela própria estruturação de cenas, como no teatro. Isso pra mim é qualidade, não defeito.

A segunda característica é um trabalho tão esmerado no burilar das palavras e frases que o texto se aproxima da poesia. Seria, então, uma prosa poética em tom de teatro. Mas não, são contos. Ou melhor, é tudo literatura de alta qualidade.

Nos contos, a densidade define personagens e situações. Como observou nossa colega Rosângela Vieira Rocha, amargura demais para um escritor tão jovem. Jovem, mas artista na composição do texto, sofisticado na eleição de estruturas e palavras. Cuidadoso no desenho quase gráfico de cada conto, de cada parágrafo.

"Beijando Dentes" não é fácil de ler. Muita coisa dói, incomoda, perturba. Há referências a autores que o influenciam, mas muita personalidade na realização de tudo. Não se lê o livro de uma sentada, um conto atrás do outro. Sua leitura requer digestão, tempo, respiro. O resultado, porém, é a conclusão de que estamos diante de um grande escritor.

Beijinhos!

Clara Arreguy, quarta-feira, março 23, 2016. 0 comentário(s).

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Dono da bola bom de bola

O escritor Luiz Schwarcz é mais conhecido como o dono da Companhia das Letras, uma das mais bem-sucedidas editoras do Brasil, objeto do desejo de dez em cada dez escritores. Apesar de empresário de sucesso no ramo, não é pelo cargo de dono da bola que sua escrita merece a publicação em livros. É porque é boa mesmo.

"Discurso sobre o Capim" (Companhia das Letras) reúne onze contos de Luiz, um conjunto de leitura agradável, com alguns picos de qualidade superior. Pra mim, o ponto alto é o provavelmente memorialístico "Acapulco", que narra um episódio da vida do menino deixado na casa dos avós judeus enquanto os pais realizam o sonho de conhecer a Itália, de onde vieram na época da II Guerra.

As peculiaridades de uma família judia emigrada pro Brasil em meados do século XX já renderiam boas histórias. Quando essa narrativa traz personagens cativantes como o avô do menino, e situações como a gráfica do velho, que estão na pré-história do bem-sucedido empreendimento que viria a ser a editora do autor, uma teia invisível acaba por costurar uma urdidura literária que emociona. Esse garoto, que não entende tudo, vive pequenas angústias e delícias de todo menino, rico ou pobre, judeu ou cristão...

O livro é mais forte sempre que o autor está mais presente em emoções nitidamente vividas. Os contos que inventam personagens mais distantes dessa realidade soam artificiais, perdem em emoção. "Sétimo andar", "A biblioteca", "Acapulco" e "Livro de memórias", em compensação, valem o livro.

Beijocas!

Clara Arreguy, terça-feira, março 22, 2016. 0 comentário(s).

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Nada de junvenil...

No dia do lançamento do meu "Dia de Sol em Tempo de Chuva" em BH, no Mercado do Cruzeiro, estava lançando livro, ao mesmo tempo, o Lucas Maroca de Castro. Seu "Famílias Invisíveis" (Crivo) apresenta, em contos curtos, interessantes histórias de personagens curiosos, ora nitidamente familiares, ora do universo da infância do autor, da memória real ou literária...

O projeto é todo ousado, com ilustrações, cores, composições em corpo grande, diagramação que em tudo sugere uma obra voltada ao público juvenil. Mas não se iludam, que a temática e a escrita de Lucas nada têm dessa linha. Pelo contrário. São ambas densas, de certa amargura, tanto que mereciam que ele se estendesse mais em algumas das histórias.

Quem sabe numa próxima aventura literária o Lucas mergulha mais fundo em alguma dessas personagens e constrói um romance ou outra história ainda mais profunda. Tem tudo pra isso...

Beijos!

Clara Arreguy, terça-feira, março 22, 2016. 0 comentário(s).

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DiCaprio lindo e talentoso



Por fim, mas não menos importante, não cheguei a comentar "O Regresso", de Iñarritu, que ganhou o Oscar como diretor e deu ainda o prêmio à melhor fotografia e o inédito ao DiCaprio.

Leonardo sempre foi lindo e talentoso, mas seu trabalho de ator cresceu com o tempo. Já vinha merecendo o respeito de público e crítica, fora os gritinhos das fãs. Nesse filme, a construção do clima conta muito com sua presença, com sua capacidade de dar veracidade àquele homem em luta contra a iminência da morte todo o tempo.

Teve gente que detestou o filme, considerando-o uma espécie de "duro de matar" 5 ou 6. Ninguém, porém, criticou a estonteante fotografia, que ajuda a conduzir a narrativa e mereceu o prêmio que ganhou.

Gostei do filme, da tensão crescente, do Tom Hardy (que perdeu o ator coadjuvante injustamente). Mas o que eu mais gostei foi mesmo do discurso do DiCaprio na cerimônia, um mea culpa de uma elite que percebe o caminho de exclusão em que se confina.

Beijos!

Clara Arreguy, sexta-feira, março 04, 2016. 1 comentário(s).

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A crise num ótimo filme

Acabou que uma série de fatores me permitiu ver alguns dos filmes do Oscar deste ano, inclusive o vencedor, "Spotlight", que já comentei neste blog como um dos mais importantes da safra recente.



Outro que assisti e que estava na disputa foi "A Grande Aposta", de Adam McKay. O filme ganhou Oscar de roteiro adaptado e com justiça. Trata-se de uma história sobre a crise econômica iniciada em 2008, com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, e com consequências até hoje em todo o mundo.

Com o didatismo necessário - em certo momento até um chef de cozinha é chamado a ajudar nas explicações -, conta como a crise se deu quando um tipo de investimento negociado na bolsa de valores como quente estourou porque era composto de papéis de poucas garantias. Diferentes grupos de pessoas ligadas ao mercado de ações percebe antes da hora que aquilo ali iria dar errado e aposta contra o mercado, ou seja, aposta que vai dar merda. E dá. E eles ficam ricos.

Muita gente não entende o filme porque explica meio rapidamente coisas como subprime e outras. Acho que fica claro que o mercado é feito por gente, inclusive gente venal e irresponsável. As agências de classificação de risco, por exemplo, tidas como oráculos do mercado, a rebaixar o Brasil todo dia, são mostradas como o que de fato são: suscetíveis a pressões dos donos do dinheiro, capazes de segurar valores irreais se isso interessar aos patrões, um ente tão confiável quanto qualquer negociante de esquina. Ou de Wall Street. Apostas...

Além do mais, o filme tem ritmo, elenco de primeira grandeza, senso de humor. Gostei!

Clara Arreguy, quinta-feira, março 03, 2016. 0 comentário(s).

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Três bons livros

Perdoem-me o tempo parada, mas estava lançando livro novo e cheia de serviço. Nesse meio tempo, ou seja, um mês, li e vi muita coisa, mas vamos tentar resumir. Começo pelos livros.

- Véspera de Lua, de Rosângela Vieira Rocha (Penalux) é uma novela essencialmente feminina, em que a personagem principal vivencia duas situações radicais, o amor por outras mulheres e um extremo mal-estar causado pela menstruação. Impossível temas mais femininos, mesmo porque dificilmente um homem elegeria como foco de um romance a TPM - sem estereótipos e com tanto conhecimento de causa. A questão homossexual, para mim, diz menos da protagonista do que o medo de amar, a impossibilidade de se entregar. Rosângela escreve com delicadeza e profundidade, numa tessitura de mestra nas letras e nos sentimentos que elas carregam.

- A Mulher Vitruviana, de Edna Rezende (Penalux). Edna é irmã de Rosângela e ambas têm em comum, além do laço familiar, do texto brilhante e da editora que as publica, uma intensa capacidade de ir fundo no universo abordado em seus escritos. Apresentado como livro de ensaios, o livro de Edna me parece mais de memórias, nas quais a escritora foca o vício tabagista como fio condutor de toda a narrativa. Com erudição e amparo conceitual em várias vertentes, ela mergulha na relação com o cigarro para se contar, se mostrar, se explicar ao mundo. O texto flui com graça e profundidade e se presta ao entendimento de diversas relações de adicção, não apenas o tabagismo. Mas tem a felicidade de apontar saída, mesmo quando o sujeito não deseja em hipótese alguma abandonar a muleta que o sustenta por toda a vida. Muito boa leitura.

- O Mundo sem Anéis - 100 dias em bicicleta, de Mariana Carpanezzi (Longe). Assim como eu fiz em meu "Siga as setas amarelas", a autora narra sua aventura de pedalar pela Europa. Diferentemente de mim, no entanto, ela não ficcionaliza, mas faz um relato memorialístico sobre momentos difíceis de sua vida, quando superou uma depressão ao sair de bicicleta pela França e Espanha, num movimento compulsivo que só pararia quando não houvesse mais chão ou pernas. O relato é bom de ler, com paisagens externas e interiores com as quais o leitor se identifica, mesmo porque a dor e os desafios não têm dono. E Mariana os encara com rara coragem, numa bela lição.

Clara Arreguy, quarta-feira, março 02, 2016. 3 comentário(s).

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