Samuel Rawet

Poucas vezes tenho lido literatura tão difícil quanto a de Samuel Rawet. A começar pelos “Contos do Imigrante”, em que seu estilo hermético, sombrio, de sujeitos sem saída e impressões sempre dolorosas. Ele me foi muito difícil, mas ao mesmo tempo desafiador. Tanto que me propus a ler o primeiro conto de cada livro reunido na coletânea com toda a obra do autor, mas apenas para confirmar que seria tarefa árdua. Os do último, “Que os mortos enterrem seus mortos”, têm a seu favor o formato mais curto, o que facilitou, mas não tornou menos espinhosa a minha leitura.

Tocou-me a trajetória sofrida do autor. Por coincidência, estava num bar outro dia quando um vendedor de livros usados, um sebo ambulante, me ofereceu, entre outros, uma reunião de 10 ensaios sobre a obra de Rawet. Comprei. Não tive tempo de ler senão o último, “Memória diálogo e discurso literário – passagem trágica de Rawet por Brasília”, de Ezio Flavio Bazzo. Nele, o estudioso conta como investigou a vida e a obra do autor. E como foi descobrindo sua loucura, sua degradação física e moral, dos surtos pelas noites do setor hoteleiro às internações. Do rompimento com a comunidade judaica à solidão e à morte patética, entre embalagens de sopa Knorr, dias e dias em sua casa de Sobradinho, sem que ninguém sentisse sua falta. O que chamou a atenção da vizinhança foram as moscas apinhadas em suas portas e janelas...

A história de Rawet, pra mim, explica em boa parte o estilo pesado, o sentido trágico de suas personagens, a falta de luz no fim do túnel ou em qualquer altura dele... Me parece literatura densa, elaborada, profunda, mas tão sofrida que não daria conta de ler mais do que me obriguei pelo compromisso com um grupo de leitura do qual faço parte. 

Beijocas!

Clara Arreguy, sexta-feira, junho 20, 2014. 0 comentário(s).

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Primeiro documentário: Fellini


Na linha de comentários em dupla que venho fazendo, assisti a dois documentários excelentes. O primeiro, "Que estranho chamar-se Federico Fellini", de Ettore Scola, retrata a relação entre esses dois grandes cineastas italianos. Fellini foi o maior, em minha opinião, um ícone tão maiúsculo do cinema mundial que não tem sucessor nem correspondente em nenhuma outra cinematografia. Ele própria brinca, numa passagem do filme, com o fato de ter virado adjetivo - o que isso significaria?

Mesclando cenas reais com a encenação vivida por atores, Scola conta os primeiros passos de Fellini como colaborador de um jornal de humor, em Roma, onde chegou, vindo de Rimini, aos 19 anos. Fellini desenhava e escrevia, e logo começou a escrever para o teatro e o cinema. Trajetória similar teve Scola, que começou aos 16 anos no mesmo jornal, também desenhando e fazer humor. Ficaram amigos ali, compartilharam amizades e expectativas.

No documentário, Scola, apresenta trechos inéditos de filmagens nos lendários estúdios da Cinnecittà, onde foram gravadas obras-primas do homenageado, e ainda faz graça e poesia com outros personagens dessa história, como Marcello Mastrioanni (na foto com Fellini) - coloca a mãe do ator dizendo que ele ficava bonito nos filmes de Fellini e feio nos de Scola... E por fim edita séries de cenas antológicas de clássicos como "Amarcord", "8 1/2", "Noites de Cabíria", "E la nave và", etc. etc. etc.

Uma bela e justa homenagem, amorosa, a um dos deuses do cinema...

Beijus!

Clara Arreguy, quarta-feira, junho 11, 2014. 0 comentário(s).

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Alma basca

A vida inteira respondi à pergunta sobre meu sobrenome com uma explicação ligeira: é basco, mas da região francesa do País Basco. Baione. O avô de meu avô imigrou pro Brasil com dois irmãos, uns foram pra Minas, outros pro sul do Brasil... Resposta quase idêntica à que Ana Luiza Panyagua Etchalus dava aos que lhe perguntavam a mesma coisa.

Fui apresentada a Ana Luiza por essas coincidências: uma amiga em comum nos pôs em contato porque ambas somos escritoras que gostamos de futebol. Acabou que o sobrenome basco nos mostrou muito mais afinidades, e acabei comprando o livro dela, "Alma Basca", para conhecer um pouco mais sobre a cultura de nossos ancestrais.

Já havia lido um livro sobre a história desse povo, quando passei por lá na primeira viagem de bicicleta pelo Caminho de Santiago, em 2010. Na ocasião, comprei até dicionário de basco. O livro de Ana Luiza também traz informações importantes sobre o país, o idioma, costumes e lendas. Mas o mais interessante é a história do reencontro dela com os primos da Argentina e da Europa, sua viagem no tempo e no espaço, quando visitou a pequena vila de onde vieram seus antepassados.

Pouco se sabe sobre os bascos, e o livro de Ana Luiza certamente abre uma porta nesse sentido. Ilustrada por fotos, mapas e depoimentos, contribui para a simpatia ou adesão a uma causa libertária de um povo que luta, há séculos, pela sua identidade.

Beijos!

Clara Arreguy, quarta-feira, junho 11, 2014. 0 comentário(s).

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Os bastidores do conclave

Acabo de ler o livro com a reportagem "Segredos do Conclave" (Geração Editorial), de Gerson Camarotti, jornalista pernambucano radicado em Brasília e que trabalha para a Globo News. Especialista em cobertura de temas vaticanistas, Camarotti "causou" ao obter entrevista exclusiva com o Papa Francisco em sua visita ao Brasil. A íntegra da conversa está contida nesta segunda edição do livro, que informa inclusive que Francisco revelou a Camarotti ter lido partes da primeira.

Como costura a cobertura do conclave que elegeu Francisco com textos sobre o conclave de Bento XVI e outros momentos, como a visita de Ratzinger ao Brasil e outras entrevistas, o livro acaba pecando por alguma repetição. Faltou uma edição que "limpasse" informações repetidas, que desse maior homogeneidade e harmonia ao texto final.

De qualquer maneira, trata-se de trabalho repleto de informações sobre a Igreja Católica no Brasil, na América Latina, no mundo, sobre os caminhos da evangelização, sobre as personalidades de Francisco, Bento, cardeais e bispos de relevo na história recente da Igreja e do Brasil.

Bisous!

Clara Arreguy, terça-feira, junho 03, 2014. 0 comentário(s).

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Comédia dramática espanhola


Os homens de meia-idade são o tema da ótima comédia "O que os homens falam", de Cesc Gay. Todos em crise, como não poderia deixar de ser. Ambientado na Catalunha, o filme reúne um elenco excelente, em que o nome de destaque é o argentino Ricardo Darín, já elogiado à exaustão nesse espaço.

Trata-se de várias histórias paralelas que acabam convergindo, ao final da narrativa. Em todas elas, diálogos entre homens em crise, um por acomodação no casamento, outro pela ruptura. Um pelo desemprego e por problemas financeiros, outro pela traição da mulher. Um por disfunção erétil, e por aí afora. As mulheres, plenas de protagonismo na vida, são coadjuvantes no drama desses homens.

A cena de Darín, claro, é a melhor. Ele é o corno que espreita a porta da casa do amante de sua mulher, e que desfia desculpas para a traição, no melhor estilo "perdoa-me por me traíres". A paixão do homem, sua dor, o insólito da situação, o interlocutor, tudo carrega de sentidos e emoções uma comédia dramática que os tem de sobra.

Beijus!

Clara Arreguy, segunda-feira, junho 02, 2014. 0 comentário(s).

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