Lindíssima obra de Ondjaki



Normalmente não gosto de livros e publicações com fundo preto e letra branca ou de cor, pois sou muito míope e acredito que, para boa visibilidade, nada como o bom e velho preto no branco. Mas dou a mão à palmatória diante do belíssimo "Uma escuridão bonita", de Ondjaki, com ilustrações de António Jorge Gonçalves (Pallas).

Por dois fortes motivos: primeiro, porque o livro é maravilhoso de beleza visual e de beleza textual. Um poema em prosa, uma história curta, simples e emocionante, o discurso de um homem ao lado da mulher amada numa noite em que falta luz. Ele deseja amor, mas também a fantasia de um cineminha proporcionado pelos faróis dos carros na parede branca em noite escura.

O segundo motivo é que a edição do livro todo em preto, com desenhos e letras brancas, se justifica plenamente pelo conteúdo. Uma noite escura. A beleza da escuridão, que dá nome ao livro, se mostra por inteiro nessa "inversão" do branco no preto. Quanta poesia, quanta viagem não cabe nessa pequena grande obra.

Pra quem não sabe, Ondjaki é angolano, traduzido em várias línguas, premiado em prosa e verso, escreve para crianças e adultos. Um grande escritor dessa grande África nossa mãe do lado de lá do Atlântico.

Beijussss!


Clara Arreguy, quarta-feira, junho 29, 2016. 0 comentário(s).

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Loyola Brandão para o coração das crianças



Não conhecia a literatura infantil de Ignácio de Loyola Brandão, mas, como amo tudo que leio dele, não me surpreendi nem um pouco com a força e a beleza de "Os olhos cegos dos cavalos loucos" (Moderna), uma produção ousada para os padrões de livros para crianças, com capa impactante e projeto gráfico de grande formato, embora não tão ousado no estilo quase retrô das ilustrações - lindas.

A história emociona e pega pelo coração. Afinal, se trata, como confessa o autor, de um pedido de desculpas meio tardio feito pelo menino (que um dia o escritor foi) ao avô, já morto há tantos anos. A confissão de culpa pelo sumiço de algo tão caro ao velho; as reminiscências da pequena cidade na infância distante; a história poética e inspiradora da paixão do homem pelo circo de cavalinhos; o processo todo para erguer e perder tudo aquilo...

Quanta poesia, beleza e profundidade numa aparentemente simples história para crianças. Não se enganem. Não é simples nem pequena. É linda e forte.

Obrigada, Ignácio, por mais um livro seu que me marca, ensina e transforma.

Beijos!

Clara Arreguy, quinta-feira, junho 23, 2016. 0 comentário(s).

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Grande Teuda, merecida biografia



O grande barato desses financiamentos coletivos de produções culturais é poder participar de projetos em que acreditamos e ajudar a viabilizá-los. Como aconteceu com o livro "Teuda Bara: comunista demais pra ser chacrete", de João Santos, para o qual contribuí e que, por isso, já chegou em casa, já foi lido e sorvido num gole só.

A biografia da atriz do Galpão que extrapolou as montanhas de Minas e chegou ao Cirque de Soleil e ao cinema internacional é pura alegria. Afinal, essa é a marca maior de Teuda. Uma personalidade maior que o próprio talento artístico, pois Teuda deixa sua marca por onde passa, quer desempenhe ou não um papel em cena.

Conheci Teuda na Fafich, quando estudávamos lá - ou fingíamos. Eu, mais preocupada com a política; ela, com o teatro e com a contracultura. Ela era boa amiga do meu irmão Tostão. Assisti a "Viva Olegário", de Eid Ribeiro, e à memorável montagem de "Triptolemo 17", com Teuda, Javert Monteiro, Adyr d'Assumpção, Carlos Rocha, Nely Rosa - algumas dessas pessoas seriam importantes para sempre em minha vida. Vi o nascimento do Galpão, participei de perto de muitos dos fatos narrados no livro por João Santos.

Mas o melhor da biografia é desnudar uma personagem tão habituada à nudez em cena, mas cuja história não era assim um livro aberto. As relações familiares, a traumática (pra qualquer pessoa seria) passagem pelo colégio interno das freiras, o desbunde nas areias de Arembepe, o nascimento dos filhos, o sacode que ela deu no mestre da macrobiótica, são tantas aventuras, tantos casos deliciosos, que não se consegue parar de ler.

O livro alterna ainda algumas narrativas na voz da própria Teuda e muitas fotos dos diversos períodos da vida dela. O projeto gráfico, todo em vermelho, com textos nessa cor e fotos no fundo igualmente vermelho, fica bonito de ver, mas dificulta a leitura de letras e imagens. Falta um pouco de revisão de português. Mas sobra alegria, alto astral, informações sobre uma personagem de Belo Horizonte que se tornou ícone e que representa a força e o amor que só o teatro nos dá.

Viva Teuda Bara!

Clara Arreguy, domingo, junho 19, 2016. 0 comentário(s).

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Metáfora política e social



Descobri o Magno Mello por um desses acasos que nos levam a pessoas tão distantes e tão próximas. Afinal, somos ambos escritores, gostamos ambos de música (ele é profissional), estávamos ambos em Brasília no dia do lançamento do livro dele e temos em comum um parentesco cruzado.

"Trustália", seu romance de estreia, sai pela Chiado e traz como subtítulo "uma quase distopia", o que promete. Assim como as primeiras linhas do livro, que nos apresentam uma situação fantástica: após a incidência de uma estranha luz colorida sobre uma cidade, as pessoas começam a ouvir os pensamentos umas das outras, o que acarreta uma verdadeira revolução na vida de todos.

Assim se traça a trama de "Trustália", nome da cidade fictícia dominada por um "dono de quase tudo", que explora o garimpo e controla com mão de ferro a "paz social". O Comandante e outros personagens da cidade, como o padre, a professora, etc., são os fios dessa teia, desse novelo. Que trama a história de cada um e do coletivo, no presente narrativo e no passado, em flashbacks.

No aspecto de crítica política metafórica, o livro se resolve muito bem, ao compor os personagens autoritários e violentos, de um lado, e os altruístas, de outro. Os corajosos e os medrosos. Os que enfrentam os próprios fantasmas e os que fogem e se submetem aos limites de uma "felicidade" sem riscos. A busca do amor e a construção de um método de ensino inclusivo temperam o novelário da cidade.

Do que senti falta foi de mais elementos da distopia proposta. O fator externo, misterioso, que desencadeia toda a mudança nas relações, fica praticamente esquecido no miolo da trama, substituído por um "tudo caminhava tranquilamente" que predomina a maior parte do tempo. No fim a questão até volta à tona, mas não se aprofunda nem no aspecto científico nem no psicológico. Fica apenas como uma boa ideia.

A escrita de Magno Mello é fluente, ele compõe personagens interessantes, sabe construir climas. Falta uma revisão melhor, para evitar alguns erros recorrentes. Mas a fluência geral prevalece ao final das contas.

Beijos!

Clara Arreguy, sábado, junho 18, 2016. 0 comentário(s).

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A incrível Maria Valéria


Maria Valéria Rezende é uma autora que eu já deveria conhecer há mais tempo mas que, por falha minha, só agora descobri. Foi preciso que ela vencesse o prestigiado Prêmio Jabuti com seu romance "Quarenta dias" pra que eu, e muita gente mais, começasse a lê-la. Mas, como dizia meu pai, antes tarde do que nunca. Se você ainda não leu uma obra excelente, que felizardo, ainda pode desfrutar esse prazer.

Pois foi com enorme prazer que tomei conhecimento desse livro premiado. E de sua autora, a incrível freira nascida em Santos e radicada há mais de 40 anos no Nordeste, onde desenvolve trabalho social e político junto a gente pobre. Adoro isso! Maria Valéria é vítima de tanto preconceito que parte da imprensa, ao se referir a ela, fala em "ex-freira". Não concebem que uma religiosa possa escrever tão bem sobre temas não religiosos.

O romance "Quarenta dias" parte de uma pesquisa que a escritora de fato empreendeu pelas ruas de Porto Alegre, cidade que não conhecia e que palmilhou em vilas, favelas, becos, cantos de rua. Ela já dominava a rua, pelos trabalhos sociais e assistenciais com miseráveis e usuários de drogas. Mas naquele local estranho, dormiu em pontos de ônibus, embaixo de viaduto, tomou banho na rodoviária. Conheceu gente e lugares, experimentou o despojamento total, até se camuflar de moradora de rua.

No livro, a personagem Alice se deixa levar (por uma filha desnaturada) da amada João Pessoa para a desconhecida capital gaúcha e ali passa por dissabores que a induzem a uma fuga meio sem sentido. Revolta, o pretexto de encontrar um conterrâneo desaparecido, e Maria Valéria Rezende faz disso uma prosa envolvente, intrigante, cheia de descobertas, para ela e para nós.

Leitura prazerosa, ao mesmo tempo leve e densa. Espero que a primeira da obra dessa escritora tão interessante.

Beijocas!

Clara Arreguy, quinta-feira, junho 02, 2016. 5 comentário(s).

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Retomando: brasileiro premiado, épico inglês

Desta vez demorei demais a atualizar o blog, mas é que andei mesmo muito apertada. De serviço, com minha produção própria e da nossa empresinha, a Outubro Edições, que nesse meio tempo lançou mais três livros: o romance "Móvel é o passado", de Joaquim São Pedro, a reportagem "O povo da Lua", de Renato Alves, e os contos de "Canção silenciosa", de Ananias Zeca de Freitas.

Vamos lá, então, ao resumo das leituras mais recentes:

- Sérgio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto (Companhia das Letras), venceu prêmio literário no Paraná e tem como protagonista um psiquiatra intrigado com o estranho caso de um paciente seu que se mudou para os Estados Unidos, onde foi assassinado. ao investigar a história, descobre que Sérgio se transformara em Sandra.
Apesar da escrita fluente e do tema interessante, o romance peca pela superficialidade na abordagem das questões, uma vez que o tal médico não percebe em momento nenhum a questão de gênero em seu paciente e não dá conta de explicar isso ao leitor. Conduz certo suspense, mas não desenvolve satisfatoriamente situações como a morte de Sérgio/Sandra ou a relação do psiquiatra com a família do paciente.


- Os pilares da Terra, de Ken Follett (Rocco), um alentado romanção histórico que me vinha sendo indicado por um monte de gente, mas que só agora tive tempo de ler. São dois volumes da mesma história (não dá pra ler um só, porque não termina no final do primeiro tomo), total de 1.100 páginas, corpo pequeno, entrelinha curta, mas a gente mergulha de tal maneira que fica impossível parar.
O enredo acompanha a construção de uma catedral gótica no século XII, na Inglaterra, com personagens interessantíssimos, como o construtor Tom e seus filhos, o enteado Jack, que herda os conhecimentos do padrasto e prossegue a epopeia arquitetônica depois da morte de Tom, o pastor Philip, um homem estranhamente ético num meio corrupto, e sobretudo Aliena, a heroína que constrói a própria história após ser vítima de todo tipo de violência e injustiça. O livro alterna amor, arte, aventura, guerra, história, moral, vilões repugnantes, heróis edificantes, num ritmo sensacional. Não tenha preguiça, vale cada página.

Beijos!

Clara Arreguy, quarta-feira, junho 01, 2016. 0 comentário(s).

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