Crônicas que alimentam a alma

O ano termina, mas não sem antes eu deixar um comentário final sobre o livro que acabo de ler, o volume de crônicas "Províncias", de Marcelo Canellas. Melhor publicação do gênero no ano em minha modesta opinião. Como escreve bem o cronista, mais conhecido como repórter especial da Globo.

Canellas é de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e suas crônicas, desde o título, fazem referência a essa alma ao mesmo tempo interiorana e cosmopolita, dada pela terra natal e pelas andanças como jornalista. Isso ele é dos bons, não apenas pelo faro atrás de notícia, mas principalmente por gostar de gente.

Daí que seus escritos são o exercício de contar boas histórias, retratar bons personagens, dar voz e vez a gente que habita o país e o mundo sem status de "importância". Mas gente de qualidade humana, sem dúvida.

Que texto primoroso, quanta poesia, quanta delicadeza nesse retratar e reproduzir. De Marcelo Canellas eu já tinha lido o "Bem-vindos ao inferno", coletânea escrita por torcedores do Internacional de Porto Alegre.

Sabia que escrevia bem, mas as 70 crônicas de "Províncias" vão além de tudo que já tinha visto nas premiadas reportagens de TV e nos textos sobre futebol. São um alento para quem lê com prazer e alimentam a esperança em um mundo melhor.

Beijos mil, feliz 2014, com saúde, paz e muitos livros!

Clara Arreguy, terça-feira, dezembro 31, 2013. 0 comentário(s).

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Grande romance de Luiz Vilela

Um autor maravilhoso, referência em sua geração e pouco popular fora dos circuitos mais literários é Luiz Vilela. Mineiro de Ituiutaba, ele tem sido brilhante desde seus primeiros lançamentos, há quase 50 anos, mas o pouco conhecimento em torno do seu nome é uma grande injustiça, porque Luiz Vilela escreve bem demais. É mestre dos contos, mestre dos diálogos, profundo, crítico, íntegro. Um autor maiúsculo em nossa literatura.

Só agora li seu romance "Perdição", de 2011, em que ele contra a história de um pescador que se torna pastor de igreja evangélica e desce aos infernos em sua busca por uma missão, um sentido para a vida. Metafórica ou realística, qualquer leitura que se faça do livro mexe com angústias e desejos de alguém que vê além do dito e do mostrado.

Dramático e profundo, Luiz Vilela constrói diálogos por vezes hilariantes, na ironia, na desconstrução do ridículo, do mítico, do efêmero, do singelo. É leitura para devorar e devotar. Como uma aula de boa escrita, de coragem para tocar na ferida.

Ainda bem que li dele o volume de contos "Cabeça", um dos livros mais geniais que já degustei, "Tremor de Terra", "Entre Amigos", "Bóris e Dóris"... Que bom que agora eu li "Perdição"! E que ótimo que ainda faltem dezenas de livros dele para curtir.

Beijus!

Clara Arreguy, quinta-feira, dezembro 19, 2013. 0 comentário(s).

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Um bom livro para jovens

Confesso que não leio muita literatura para público jovens, então nem sei avaliar direito esse mercado. Mas um bom livro é um bom livro, seja para qual público for, e "O irmão que veio de longe", de Moacyr Scliar, tem todas as características para emocionar o leitor.

Primeiro, é muito bem escrito, o que não é novidade nenhuma em se tratando de Moacyr Scliar. O querido escritor gaúcho, morto há poucos anos, sempre foi um exímio contador de histórias, dono de uma prosa fluente e redonda. 

Neste conto juvenil, ele fala com primor sobre diferença, amizade, solidariedade. Uma família sulista, após perder o pai, importante indigenista com trabalho na Amazônia, descobre que ele tinha por lá um filho índio. O menino vai para a casa dos novos irmãos e ali começa, para todos os envolvidos, o aprendizado do convívio, com suas dores e delícias.

Estranhamento, admiração, bullying, respeito cultural, tudo isso entra no caldeirão das novas relações que se estabelecem e que Scliar disseca sem teorizar, sem fazer sociologia, apenas boa literatura. Uma lição de simplicidade e sensibilidade para leitores e escritores.

Beijocas!

Clara Arreguy, quarta-feira, dezembro 18, 2013. 0 comentário(s).

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Galo, a paixão em dois DVDs


Nunca usei este blog pra falar de futebol ou da minha paixão pelo Galo, mas agora, com o lançamento de dois DVDs - um sobre a campanha do Clube Atlético Mineiro na Libertadores 2013 e outro sobre Ronaldinho Gaúcho no clube -, o motivo é tão cultural quanto apaixonado.

Dirigidos ambos por André Lisboa, Contra o Vento e R49, o Meteoro Atleticano preenchem uma lacuna de produções sobre futebol que ainda hoje predomina no esporte brasileiro. Diante do volume de gente e fatos ligados ao tema, são muito raras as boas iniciativas no gênero, e uma felicidade para o torcedor quando elas existem.

Os DVDs foram idealizados por Assis, irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, e lançados com boa divulgação pela mídia. No último jogo do time no Independência antes da viagem ao Marrocos, foram vendidos, o par, a R$ 50 na porta do estádio. Custam R$ 30 cada.

Trazem gols, bastidores, entrevistas, lances pitorescos e memoráveis do principal título do clube e do principal ídolo nos últimos 30 anos. O torcedor ri e se emociona com tudo novamente. Bons demais!

Bisous!

Clara Arreguy, segunda-feira, dezembro 16, 2013. 0 comentário(s).

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Um livro, um filme, um livro


E aproveitando o clima de Natal, comprei na Feira do Livro de Brasília, numa promoção, o pequeno, mas lindo, "Conto de Natal de Auggie Wren", de Paul Auster, com ilustrações de Isol. Aí lembrei que já tinha visto algo assim no cinema e fui tirar a limpo. Este é só um conto curto mesmo, que o autor, como roteirista, incluiu no filme "Smoke" ou "Cortina de Fumaça", como se chamou no Brasil.

Dirigido por Wayne Wang, tem como protagonistas Harvey Keitel e William Hurt, e participações de Forest Whitaker e Stockard Channing, entre outros. O conto do livro consiste apenas nos últimos 9 minutos do filme, mas é de profunda delicadeza. O filme todo, na verdade, mescla histórias cheias de sutilezas, em que brancos e negros convivem no Brooklyn, ora tensa, ora amorosamente. Afinal, são histórias de Paul Auster, e estamos falando de um mestre.

A edição do livrinho da Cia. das Letras é lindíssima; as ilustrações, maravilhosas. O diminutivo diz só do formato pequeno e curto, não da grandeza desse autor. Um presente de Natal baratinho, mas sem preço.

Beijus!

Clara Arreguy, sexta-feira, dezembro 06, 2013. 0 comentário(s).

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Drama sutil com Jeremy Irons



Para compensar a ida forçada ao cinema num filme ruim feito Crô, assisti a uma beleza de produção: Trem Noturno para Lisboa, de Bille August. A história se baseia no romance homônimo de Pascal Mercier e reúne elenco estelar, internacional, para contar um drama sobre a trajetória filosófica, política e existencial de um suíço.

Vivido por Jeremy Irons, um dos meus atores favoritos no cinema, Trem Noturno para Lisboa começa em Berna, onde o professor Raimund Gregorius salva uma moça do suicídio e encontra nas coisas dela um livro escrito por um militante da resistência contra a ditadura de Salazar, Amadeu do Prado. Encantado pela escrita do autor, Gregorius pega o tal trem, larga pra trás uma vida monótona e sem sentido e parte para investigar os personagens daquela história.

Em Portugal, encontra não apenas o passado de Amadeu como muitos dos envolvidos ainda vivos, marcados pelos acontecimentos que levaram à Revolução dos Cravos, à morte de alguns e ao destino que coube a cada um.

Resistência, amor, companheirismo, traição e ciúme são ingredientes que não faltam. Uma beleza de filme, delicado, reflexivo, interpretado nas sutilezas e realizado com alma. Além de Irons, tem outros excelentes atores, como Bruno Ganz, Charlotte Rampling, Lena Olin, Christopher Lee e Tom Courtenay, velhos e bons intérpretes do melhor cinema.

Beijins!

Clara Arreguy, quarta-feira, dezembro 04, 2013. 0 comentário(s).

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Os nórdicos, sempre eles

E pra não perder o costume de um romance policial entre uma coisa e outra, e pra não perder a veia dos nórdicos que dominam pelo menos a minha leitura, terminei O Segredo do Lago, do islandês Arnaldur Indridason. Já comentei o autor aqui. É daqueles ótimos, em que a trama mescla crime, história e política. Neste caso, um corpo que aparece com o esvaziamento de uma lagoa e que remete à Guerra Fria, à espionagem entre países da esfera capitalista e os da esfera soviética, em particular a Alemanha Oriental, onde boa parte da trama se desenvolve.

O protagonista é conhecido dos leitores de Indridason, o policial Erlendur, atormentado pelo passado, pelo presente e pelo futuro. Quando criança, viu seu irmão desaparecer na neve. Adulto, largou mulher e filhos. Hoje, sua filha é viciada em drogas, clama por socorro nas situações-limite, e ele não sabe o que e como dar a ela. Ainda por cima, ele está numa quase relação com uma mulher casada que lhe desperta afetos adormecidos.

Ô trem bom que é ler um bom policial, bem escrito, bem tramado, fluente e no qual se aprende sobre realidades tão distantes da nossa!

Beijocas, pois!

Clara Arreguy, terça-feira, dezembro 03, 2013. 4 comentário(s).

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