O lobo vai te pegar


Este ano não estou acompanhando tanto a corrida pelo Oscar, mas fui ver "O Lobo de Wall Street" e encontrei ali um forte candidato. Mais uma parceria bem-sucedida entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, mais um filmaço. São três horas que correm vertiginosas, não tanto pela orgia de sexo e drogas ou pelo desvario do dinheiro fácil. O filme tem mais, muito mais que isso.

Baseado na história de Jordan Belfort, que aos 26 anos ganhava 49 milhões de dólares por ano em transações suspeitas na bolsa de valores, o enredo refaz a personalidade carismática e delirante do rapaz, em sequências engraçadas e politicamente incorretas.

Numa cena antológica logo no inicinho, Jordan aprende com o personagem de Matthew McConaughey os truques de se dar bem naquele negócio. Além de desprezo por sentimentos éticos ou morais, compensações de prazer pela tensão de lidar o dia inteiro com números: sexo, cocaína, álcool, bolinhas, um mergulho no gozo desenfreado.

Essas lições ele leva ao abrir a própria empresa, onde vale tudo das 9h às 19h. O paraíso de prazeres e riquezas para quem fizer a lição de vender lixo e trapacear, sem aceitar um não como resposta. O topo de um sistema e de uma ideologia que não se importam com pessoas, com vítimas, com o outro. No comando, Jordan, o pregador desse culto profano ao dinheiro.

DiCaprio recria não só o charme e a graça de Jordan, como sua desagregação mental e moral. Além dele, Jonah Hill, que faz Donnie, o braço direito de Jordan nos negócios e nas viagens, dá também um show de interpretação - estão ambos indicados ao Oscar, um como ator, o outro, coadjuvante. Aliás, o elenco é um espetáculo. A produção concorre ainda a melhor filme, diretor e roteiro.

Beijocos!

Clara Arreguy, sexta-feira, janeiro 31, 2014. 3 comentário(s).

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Um suspense, dois problemas

Há livros que têm trama interessante, bom ritmo e desenvolvimento, mas mesmo assim irritam a gente ou pela demora do personagem em assumir seu potencial como protagonista ou por falhas de acabamento da própria edição. "O Analista", de John Katzenbach, possui os dois tipos de problema. No que se refere a tradução e edição, são inúmeros os casos, como "motor de polpa", em vez de popa, ou "odor de objetos humanos" quando estoura um esgoto, espalhando, obviamente, dejetos. Isso sem falar em todos os "porque" errados.

Quanto à trama, porém, "O Analista" de fato consegue prender, pelo suspense da história de um psicanalista que, do nada, começa a ser ameaçado e a ter sua vida sequestrada por um inimigo oculto, que lhe invade da casa às contas, devassando e destruindo toda sua estabilidade.

O que incomoda é que, na primeira metade da narrativa, o personagem demora demais a agir com inteligência e a criar condições para uma virada na trama - que é claro que virá, senão o livro terminaria com a realização dos termos da ameaça, a meio do caminho.

Da virada em diante, quando a gente faz as pazes com o protagonista e ele começa a pensar como o leitor, ou seja, com a malícia que o caso exigia desde o início, aí o desenvolvimento se dá de forma mais fluida e as 460 páginas do romance são vencidas com menos atropelo.

Beijins!

Clara Arreguy, segunda-feira, janeiro 20, 2014. 0 comentário(s).

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Lição de anatomia


Mais pra lição de anatomia do que pra produção erótica, "Ninfomaníaca" pode até chocar os mais pudicos, mas não é pra tanto. O novo filme de Lars von Trier mergulha fundo (ops), sim, é nas angústias de uma mulher em busca de sentido para a vida. O sexo é o único canal (outro ops) que Joe conhece. Não há relação, a não ser com o pai, não há trabalho, profissão, desejo. Por isso, por meio do sexo, ela procura, procura, procura...

A proposta mais chocante de Von Trier em "Ninfomaníaca" foi partir o filme em dois e deixar a segunda parte pra daqui a alguns meses. Sacanagem. Não que a trama tenha parado num ponto de suspense. Pelas "cenas dos próximos capítulos" dá pra ver que vem aí mais do mesmo. Joe, encontrada por Seligman caída na rua e toda machucada, conta a ele por que é uma menina má. Tudo que já aprontou. Ele a ouve, comenta, pontua, não julga.

Dividido em capítulos, o filme tem sequências divertidas - como a aposta entre duas amigas sobre quem pega mais homens durante uma viagem de trem - e outras angustiantes, sempre na busca de referências por Joe. Apesar de contar com ótimos atores, como Charlotte Gainsbourg, Christian Slater, Shia LaBoeuf e Stellan Skarsgard, o ponto alto, em matéria de interpretação, é a entrada em cena de Uma Thurman como a mulher abandonada por um dos amantes de Joe. Brilhante.

Algumas cenas de sexo explícito e a exposição em close de vários órgãos genitais quebram tabus e podem assustar, mas não conduzem a nada chocante quanto ao comportamento da personagem. Joe coleciona parceiros, se apaixona, se decepciona, se sente o pior dos seres humanos. Por fim acompanha o pai em sua agonia de morte. Aguardemos a segunda parte...

Beijos bem comportados.

Clara Arreguy, sexta-feira, janeiro 17, 2014. 0 comentário(s).

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Camilleri em dose dupla, e baratinho

Como são as coisas: tanto a Goia quanto a Clarice não resistiram a um Camilleri duplo e compraram, simultaneamente, o mesmo livro: o vira-vira da Saraiva, com A Forma da Água de um lado e A Paciência da Aranha do outro. Explicando: Andrea Camilleri, o autor italiano, "pai" do comissário Montalbano, nosso personagem mais querido, é também nosso autor predileto. Daí as duas não resistirem - e eu com elas.

Peguei o livro emprestado, li a primeira história, que de tão antiga não tinha ainda o Catarella, outro personagem xodó dos leitores desse escritor, e, ao começar a segunda história, lembrei que já a tinha lido. Problema? Nenhum. Mesmo sabendo de antemão a solução do caso investigado por Montalbano, sobre um sequestro, é sempre uma delícia reencontrar seu humor ácido, sua complicada relação com a noiva, Lívia, sua relação ainda mais conturbada com a autoridade policial, seus métodos heterodoxos, seus diálogos deliciosos.

Então, fica a dica: por apenas R$ 9,90, duas aventuras do mais divertido agente policial de Vigàta, de toda a Sicília, de toda a Itália - ora, do mundo todo.

Beijos!

Clara Arreguy, terça-feira, janeiro 07, 2014. 0 comentário(s).

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Woody Allen e Hobbit


Ano termina, ano começa, e eu ainda devo alguns comentários dos últimos dias que não tive tempo pra fazer. São dois filmes: o "Blue Jasmine", de Woody Allen, e "O Hobbit: a desolação de Smaug", de Peter Jackson.

Sobre Woody Allen sou supersuspeita, porque amo o cinema desse nova-iorquino maluco, seja em suas feições mais dramáticas e filosóficas, seja nas comédias mais rasgadas. "Blue Jasmine" é um dos filmes mais dramáticos que já vi de Allen; sintonizado com nossos tempos, retrata de forma impecável a desagregação emocional de uma mulher que vai da alta burguesia corrupta às vizinhanças da classe média mais fuleira.

Cate Blanchett, uma das atrizes mais completas da atualidade, dá tanta veracidade à personagem que o espectador chega a se compadecer da perua, "vítima" de um marido corrupto e galinha. Com sua empáfia de menina mimada, ela tenta sobreviver à decadência e ao escândalo, usando as armas de que dispõe. 

Já Sally Hawkins, que faz a irmã de Jasmine (as duas na foto), também brilha num papel em tudo oposto ao de Blanchett, a pobretona sem glamour e chegada em situações que têm tudo pra dar errado. 

O filme é ácido, crítico, tirando do espectador poucas risadas - considerando-se o diretor - e muita reflexão.



Quanto ao segundo episódio da saga do Hobbit (foto) segue na mesma toada do primeiro, conduzindo a aventura dos anões em busca de seu reino perdido. Neste eles continuam fugindo de orcs, enfrentando mistérios, contando, sem querer, com a ajuda de elfos, até dar com o famoso dragão. Para infelicidade dos desavisados, quando o bicho literalmente vai pegar... lembramos que ainda falta um episódio... Ou seja, aguarde... 

Bom, de qualquer maneira, tem aventura, ritmo, efeitos, romance, tramas e entrelaces...

Beijões de feliz 2014!

Clara Arreguy, quarta-feira, janeiro 01, 2014. 0 comentário(s).

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