Piada velha


A coisa funciona assim: você tem um compromisso às 15h40, então pode almoçar e assistir a um filme às 13h30, mas o único em cartaz nesse horário é "Crô, o filme". Aí você pensa: "Putz, mas a novela já era tão ruim, um filme de carona nela deve ser uma bela" - bem, você sabe o que eu pensei. Mas fui assim mesmo. E não é que o Aguinaldo Silva, novelista e autor do roteiro do filme, e o Bruno Barreto, diretor conceituado, fizeram um esforço para salvar o caça-níquel do desastre total?

A ideia foi inserir na história algo politicamente correto. Se a graça de Crô (na ótima interpretação de Marcelo Serrado) havia se salvado no fiasco que foi a novela "Fina Estampa", o contraponto entre o gay e o machão vivido por Alexandre Nero continua a funcionar na telona, mas não daria um filme. Então entra na trama o par de vilões vivido por Carolina Ferraz e Milhem Cortaz. Eles exploram imigrantes bolivianos clandestinos na indústria de confecção paulista, e dali sai a pequena heroína da trama, a menina Paloma (Urzula Canaviri).

Com trabalho escravo e trabalho infantil denunciados pela trama, a piada velha representada pela reciclagem de personagens ganha pelo menos algum sentido. Não deixa de ser piada velha, mas alguma coisa se salva...

Beijões!

Clara Arreguy, sábado, novembro 30, 2013. 0 comentário(s).

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Viagem ao Rio Grande do Sul


Em viagem ao Rio Grande do Sul, pude curtir algumas das melhores produções da cultura daquele estado e, claro, do Brasil. Primeiro, por participar do lançamento do projeto Gaiteiros do Brasil, do grande Luiz Carlos Borges, que trouxe ao palco do Teatro Renascença o francês Richard Galliano (D), uma das maiores feras do que chamamos acordeom, sanfona ou, para os gaúchos, gaita. O evento teve participações também do próprio Borges (E), um gênio do instrumento, além do garoto Dudu Gaiteiro, de apenas 11 anos, mas um talento nato, e de Samuca e seu quarteto. Puro encantamento!


No dia seguinte, assisti ao lançamento do primeiro disco solo de Beto Bollo (foto), Olhos de Águia, na verdade um álbum duplo, com um disco instrumental e outro cantado. O músico, compositor, cantor e arranjador que integra o Tambo do Bando brinda o ouvinte com um repertório denso, de canções apuradas tanto em melodias quanto em letras, pesquisa da cultura negra, participações especialíssimas de grandes parceiros de seus 30 anos de carreira, e arranjos que envolvem e apaixonam.

Por fim, mas não menos importante, recebi do percussionista Chicão Dornelles o audiolivro que ele produziu, com Marcelo Lehmann, Universo Percussivo. No livrinho, Chicão ensina a produzir instrumentos com material reciclado, coisas ao mesmo tempo fáceis e práticas; apresenta alguns dos principais ritmos da música brasileira, como samba, frevo, baixão, xote, além de regionais, como milonga e chamamé. E completa com o disco que traz esses ritmos interpretados por ele e por Lehmann, uma delícia em formato de bolso.

Viagem ao Rio Grande do Sul é garantia do melhor da cultura nacional!

Beijocas!

ps - Claro que as fotos são de Paulo de Araújo

Clara Arreguy, quarta-feira, novembro 27, 2013. 0 comentário(s).

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Rios e índios de Caratinga

Gosto de livros de história, principalmente aqueles em que o autor tenta aproximar a história do leitor, sem o cacoete acadêmico. Por isso, e por muito mais, viajei em "O Rio da Flor da Mata", de Antônio Soares Castor. Conheci o Castor no evento de autores caratinguenses do qual participei, de penetra, em Brasília - embora minha família materna seja de Caratinga, eu mesma sou de BH e só fui àquela cidade uma vez.

O Castor tem uma forma interessante de abordar a história de Caratinga, pelo "atalho" da história do rio e dos índios que ali viveram antes e durante a colonização dos brancos. Num diálogo entre dois professores à beira d'água, em meio a uma pescaria, ele vai alinhando fontes, dados, propostas de combate à poluição da bacia, de forma que o leitor nem vê que está assistindo a uma aula - uma só, não, várias. Sobre os índios, então, são informações ricas e raras.

O livro contém, antes da parte histórica, uma espécie de conto de ficção que reúne diversos causos, lendas, microcontos, narrados por um casal também sob a forma de diálogo. Em ambas as partes do livro, Castor revela prosa fluente, agradável, rica em imagens e imaginação.

Um grato encontro para quem não conhecia o autor. Mas, cá pra nós, nenhuma surpresa para quem sabe que, daquelas águas do Caratinga, tudo que sai vem com dose extra de talento.

Bjs!

Clara Arreguy, sexta-feira, novembro 22, 2013. 0 comentário(s).

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Policial a dinamarquesa

Um par de autoras que eu não conhecia, Lene Kaaberbol e Agnete Friis. Elas são dinamarquesas e fazem sucesso por lá, mas até agora eu não tinha lido nada daquele país. "O menino da mala" (da editora Arqueiro) é daqueles thrillers que a gente não consegue parar de ler um minuto, pela tensão constante.

Já na primeira página uma mulher encontra uma criança de três anos dopada e nua dentro de uma mala guardada num depósito da rodoviária. Daí em diante, vem sequências de tirar o fôlego, com narrativas em perspectivas alternadas da enfermeira que encontrou o menino na mala, da mãe do garoto, em sua procura desesperada, do homem que o sequestrou, do mandante do sequestro, etc.

A questão dos imigrantes nos países nórdicos é sobejamente conhecida de quem lê livros de autores suecos como Stieg Larsson ou Henning Mankell. Na Dinamarca, a situação se repete, tanto que a protagonista trabalha em grupos de apoio a esses imigrantes.

Personagens e situações envolvendo antigas repúblicas do campo soviético, como Lituânia e Letõnia, com prostituição e violência, completam o quadro de uma aventura de suspense físico e psicológico imperdível para amantes do gênero - como eu.

Bisous!

Clara Arreguy, quarta-feira, novembro 20, 2013. 0 comentário(s).

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Febre do ouro


Custei mas fui ver Serra Pelada", de Heitor Dhalia, um bom drama com toques de faroeste caboclo. Importante a imersão que o filme faz naquele universo de violência e vale-tudo no garimpo do início dos anos 1980. Mostra não apenas uma condição social, econômica e política de um Brasil que o Brasil desconhece, mas uma psicologia também pouco conhecida, a febre do ouro, que vicia tanto quanto os apelos mais corriqueiros, como o do sexo e o da droga, tão presentes naquele microcosmo.

Para contar a história de dois amigos que se aventuram em busca do sonho do ouro no garimpo do Norte distante, do Brasil profundo, são fundamentais as interpretações de Juliano Cazarré e Júlio Andrade, dois atores com trajetórias sólidas no cinema e já aparecendo bem na televisão. Dois grandes intérpretes, que dão nuances aos personagens, sem deixá-los cair no maniqueísmo de heróis e vilões.

As participações "menores" em termos de tempo de tela não querem dizer menos qualidade, principalmente quando se fala em Wagner Moura e Matheus Nachtergaele, como dois criminosos poderosos. A jovem Sophie Charlotte, lindíssima, faz sua parte com dignidade e compõe um padrão de elenco de primeira.

Diálogos, atuações, recriação do ambiente, música, fotografia, tudo em "Serra Pelada" é de primeira e faz deste um dos bons brasileiros em cartaz. Afinal, uma boa história, bem contada, é o que o público deseja e merece.

Bjs!

Clara Arreguy, quarta-feira, novembro 13, 2013. 0 comentário(s).

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Encruzilhada portuguesa

Meu pai sempre dizia que quando a gente ainda não leu um bom autor é uma pessoa feliz porque ainda tem um grande prazer a descobrir. Pensando desse modo, foi até bom ter demorado a descobrir o Miguel Sousa Tavares, porque ele é fantástico e nunca mais quero parar de lê-lo. Minha recente fonte de prazeres literários é seu novo romance, "Madrugada Suja".

Ambientado no interior de Portugal, numa vila às portas da extinção (tão parecida com a terra dos meus antepassados, onde estou situando também meu novo romance, ainda em construção), tem como protagonista um rapaz em busca de uma postura ética, logo depois de se envolver num acontecimento trágico numa madrugada de porre e bandalheira, em que uma jovem leva a pior.

O malfeito de Filipe o perturba pelos anos que se seguem, assim como sua história familiar, com a morte da mãe tão nova e a partida do pai para se engajar na revolução de 1974. Adulto e profissional, ele esbarrará em situações que lhe confrontam o sentido ético e o conduzem a uma tomada de posição que acabará por influir naquele caso do passado, na sujeira que envolveu a moça, ele e outros colegas de faculdade.

Com uma narrativa ao mesmo tempo poética e cheia de informações sobre a situação política, econômica e ambiental de uma Europa contemporânea em tantas encruzilhadas, "Madrugada Suja" ouve várias vozes, mas toma partido e se coloca com força dramática nos caminhos e descaminhos que as pessoas, os países e as consciências precisam adotar. Há saída, mas nada é fácil nem sem custo.

Beijos!

Clara Arreguy, segunda-feira, novembro 11, 2013. 0 comentário(s).

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Deliciosa narrativa no mundo comunista


Quando minha amiga Ana Maria foi embora de Brasília, me deixou alguns legados, entre os quais o livro "Jardim de Inverno", de Zélia Gattai, uma das sequências da série de memórias que ela escreveu, a começar por "Anarquistas Graças a Deus". Este trata do período em que ela e Jorge Amado tiveram que deixar o Brasil, entre 1948 e 1952, depois da cassação do mandato de deputado dele devido à proibição do Partido Comunista.

Com uma linguagem deliciosamente fluida e com um domínio do contar casos como poucos, a escritora narra as agruras do exílio, as dificuldades políticas, tudo em meio a histórias engraçadas, singelas, comoventes. Descreve a Tchecoslováquia, onde moraram num castelo que o governo socialista destinou a escritores, um pouco da União Soviética, da China nos primeiros anos da revolução, elogia os avanços e conquistas sociais e critica o autoritarismo, o sectarismo e a perseguição sofrida por intelectuais e vozes dissonantes ao regime.

Outra fonte de histórias iluminadas são amigos do casal, como os poetas Pablo Neruda e Nicolás Guillén, além de artistas, políticos, o filho João Jorge, uma criança espevitada em meio a comunistas de todas as origens.

Me diverti e emocionei nesta leitura propiciada pela herança da Ana Maria e pela sensibilidade de Zélia Gattai.

Clara Arreguy, quarta-feira, novembro 06, 2013. 0 comentário(s).

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