Outro bom sueco

Um dos autores nórdicos de romances policiais que descobri recentemente foi o sueco Hakan Nesser, que, com seu "A Rede", foi premiado como melhor estreante. O livro têm à frente o inspetor Van Veeteren, um daqueles protagonistas pelos quais os leitores fiéis de policiais se apaixonam.

Brilhante, solitário. de humor instável, o agente estava quase conformado com a prisão e o julgamento de um professor suspeito de assassinar a própria mulher na banheira. Ele havia bebido demais e não se lembrava de nada do ocorrido na noite em que ela morreu. Mas Veeteren decide ir atrás da verdade, e descobre que há muito mais coisa por trás das aparências.

Ao investigar, encontra indícios de um serial killer agindo há anos. Até que o próprio professor condenado também é morto, e todas as forças policiais começam a procurar as respostas.

Leitura boa, ágil, veloz, para amantes do gênero - ou não.

Beijocas!

Clara Arreguy, terça-feira, outubro 28, 2014. 0 comentário(s).

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Memória da pedra

Uma das leituras combinadas para o grupo do qual faço parte, sobre livros e autores de Brasília, é “Memória da Pedra”, de Maurício Lyrio, um diplomata que mora na capital federal, mas cuja temática diz respeito ao Rio de Janeiro – pelo menos no romance em questão.

O livro é bom demais. Polpudo, bem escrito e bem tecido, acompanha um momento na vida de um professor de filosofia da universidade fluminense. Solitário e contido desde que teve a vida marcada pela morte dos pais em acidente de carro, Eduardo resiste ao amor e às relações, mas acaba se envolvendo com um menino de rua por quem se sente unido de alguma maneira. Leva o menino para casa, apresenta-lhe outras possibilidades, introduz o rapazinho na sua vida, na da namorada, dos sogros etc.

Claro que isso vai trazer desafios, que levam tanto a realizações incríveis quanto a desastres esperados. Ao mesmo tempo, na relação de Eduardo com seu único amigo, o médico Gilberto, as coisas se complicam pelo cruzamento de histórias com as mulheres de ambos, Laura e Marina. Essa, por sua vez, ruma para o suicídio, o que vai gerar consequências na vida de todos.

A tensão política do Rio de Janeiro e do Brasil da época das Diretas se mescla com as tensões sexuais e familiares que permeiam toda a narrativa e todos os personagens, numa construção densa de um romance que, embora não seja de fácil mastigação, permite uma digestão especial.

Beijos!



Clara Arreguy, segunda-feira, outubro 27, 2014. 0 comentário(s).

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Um brasileiro (bem-humorado) em Paris

Na última página da revista Veja Brasília, divido o espaço com o escritor Daniel Cariello. Escrevemos quinzenalmente, alternadamente. Assim como eu e meu "Catraca Inoperante", ele publicou uma coletânea de crônicas, "Chéri à Paris - Um brasileiro na terra do fromage", onde reúne escritos produzidos nos anos em que morou na França.

Que delícia de crônicas! Daniel é engraçado sem forçar a piada. Das situações bizarras ou constrangedoras às ocorrências banais em torno do idioma, do sotaque, do biquinho que se faz para falar corretamente o francês, ele sempre dá um jeito de tirar humor fino, inteligente e de bom gosto.

Gosto em especial de quando ele mexe com hábitos como as passeatas e manifestações por qualquer motivo - ele propõe uma série de possíveis movimentos, caso haja crise nas motivações... Outra que me matou de rir foi sobre um motorista de táxi que dispara pelas ruas de Paris.

Com os assuntos divididos pelos momentos vividos na temporada parisiense, o livro apresenta belas ilustrações, uma produção refinada e toques líricos, como no texto sobre a framboesa herdada de um amigo que se foi ou nas doces e rabugentas lembranças na hora da partida.

Um volume cheio de histórias e graças, que se lê vorazmente.

Ulalá!

Clara Arreguy, quinta-feira, outubro 09, 2014. 0 comentário(s).

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Amor no deserto

"Não diga noite", de Amós Oz, é uma triste história sobre amor e incomunicabilidade. Um dos meus autores prediletos, israelense militante pela paz, Amós Oz constrói, nesse romance, uma dupla narrativa semelhante a paralelas condenadas a nunca se encontrar. Alternam-se as vozes de Teo e Noa, um casal que vive junto há sete anos, mas que não consegue mais se entender.

Teo é mais velho que Noa, viveu as guerras que fizeram de Israel a potência que é hoje. Planejador de cidades, está quase aposentado numa cidadezinha do deserto onde Noa leciona literatura numa escola para jovens. Um dos alunos de Noa morreu de overdose e o pai dele cismou de construir na localidade um centro de recuperação de drogados. A comunidade rejeita a ideia, mas Noa, com certa consciência pesada, abraça a causa e bate de frente com Teo, que não crê no projeto.

Enquanto se amam e desentendem, Teo e Noa lembram a história pessoal de cada um, marcada pela solidão, e vivenciam o pano de fundo do país em que vivem, com suas contradições políticas, religiosas e culturais. O romance, no início, custa um pouco a engrenar, mas assim que saímos daquela rotina opressiva do casal, como colocada pelo autor, a história deslancha e o leitor é facilmente capturado por suas questões.

Como gosto dos escritos de Amós Oz!

Beijus!

Clara Arreguy, terça-feira, outubro 07, 2014. 0 comentário(s).

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Leminski e as quatro biografias

Por coincidência, todo mundo andou lendo, ao mesmo tempo, o livro "Vida", no qual o poeta Paulo Leminski reuniu quatro biografias publicadas originalmente em separado na coleção Encanto Radical, nos anos 1980. Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski são os biografados, figuras aparentemente sem conexão, mas que se unem na inspiração ou na admiração do autor de suas biografias.

Nesse volume, lançado pela Companhia das Letras ao lado das obras poéticas completas de Leminski, os resultados são desiguais mas nem por isso de menor qualidade. De Cruz e Sousa, nada sabia até ler o romance biográfico escrito por Margarida Patriota, "O Assinalado", que mais ficcionaliza e menos analisa, como faz Leminski, a vida do poeta catarinense. Negro, criado por brancos da elite, ele protagonizou uma trágica vida de sofrimento e exclusão num mundo que não lhe pertencia e que nada fez por sua aceitação, ainda que tivesse composto uma obra maiúscula do simbolismo brasileiro.

De Bashô, nada sabia mesmo, mas Leminski nos apresenta sua vida e obra com a paixão de quem mergulhou na cultura japonesa e se tornou, ele também, um samurai das palavras e dos haicais. De Jesus, pensava que sabia muito e esperava encontrar alguma novidade, que não veio. A linha da biografia é poética, escrita por quem conduz uma análise por meio da palavra escrita e falada pelo Doce Nazareno.

Em Trótski reside o melhor do volume porque, além de focar na biografia propriamente do revolucionário, Leminski vai fundo no pano de fundo dessa história, a Revolução Russa, com seus personagens centrais, entre eles Lênin e Stálin. Traz ainda momentos decisivos na construção do socialismo real, com suas contradições e avanços, não poupando a crítica quando ela se faz necessária. Um belo texto sobre um assunto interessantíssimo, pelo menos para quem conduz, ao longo da vida, a carga de pensar e agir movido pela paixão revolucionária.

Beijocos!

Clara Arreguy, segunda-feira, outubro 06, 2014. 0 comentário(s).

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