No Caminho de Santiago

Por ocasião do lançamento de meu romance "Siga as Setas Amarelas", troquei livros também com uma autora mineira, Rosaly Senra, que também fez o Caminho de Santiago, só que no modelo tradicional, a pé. Ao contrário do meu livro, porém, o dela, "Em Busca de Cerejas: nas trilhas de Santiago de Compostela" (Gutenberg), é um relato em estilo de diário de viagem.

Rosaly narra passo a passo as venturas e desventuras de se submeter ao sacrifício físico de transpor 800km em 30 dias, à custa de muita bolha, muita dor, muito cansaço. Claro que as recompensas são proporcionais, já que o caminho não diz respeito apenas a caminhar, mas conduz a uma busca interior mais profunda e mais extensa.

Os questionamentos sobre espiritualidade, sobre limites, sobre metas e meios de levar a vida estão todos presentes na narrativa de Rosaly. Além disso, ela acrescenta informações úteis, esclarecimentos históricos, notas de pé de página que enriquecem o diário de sua viagem e ajudam a emoldurar o ambiente onde tudo se deu.

Para completar também essa função, ela reproduz várias das fotos que fez durante sua viagem, empreendida em 2001. Para amantes do Caminho - ou não - é uma leitura absorvente e fluente.

Beijus!

Clara Arreguy, quinta-feira, dezembro 11, 2014. 0 comentário(s).

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Romance gaúcho

Um autor que conheci em Santa Maria (RS) e com quem troquei livros é Tailor Diniz, que me enviou gentilmente seu romance "Em Linha Reta" (Grua Livros). Premiado em diversos certames, traduzido para outros idiomas e adaptado para o cinema, Tailor é um veterano em narrativas longas bem compostas.

"Em Linha Reta" consiste naquele tipo de trama que envolve o leitor de tal maneira que ele se sente sugado para dentro de um turbilhão. É mais ou menos o que acontece com a personagem principal, a garota de programa Sophia Antonelli.

Dentro de um carro, onde está sendo conduzida para algum cliente, ela vai sendo arrastada para um universo surreal, situações ao mesmo tempo absurdas e apavorantes. Sem noção de tempo ou espaço, ela começa a confrontar seus medos em condições desconhecidas e cada vez mais incompreensíveis.

Com reviravoltas e surpresas na trama e uma escrita ao mesmo tempo elaborada e fluente, o romance de Tailor Diniz prende do início ao fim, numa grata descoberta de um autor pouco valorizado fora de seu estado natal.

Beijocas!

Clara Arreguy, quarta-feira, dezembro 10, 2014. 0 comentário(s).

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Um clássico dos anos 70

Não li na época, só agora, um clássico: o romance "Reflexos do Baile", de Antônio Callado (Nova Fronteira). Lembro que era uma unanimidade, em meados dos anos 1970. Callado era comunista, ligado ao Partidão, e seu livro fala de uma tentativa de sequestro de embaixadores, algo muito presente naqueles tempos.

A leitura do livro não é fácil. O autor o estrutura em cartas, bilhetes, mensagens trocadas entre personagens, mas apenas o destinatário é identificado, não o remetente. Então, levei umas boas páginas até me situar no quem é quem da trama, e mesmo assim às vezes me perdia. Fazia parte também do momento político e cutural um pouco de hermetismo, dificultar a compreensão, via mensagens cifradas, porque a censura agia e tirava de circulação o que considerasse ameaçador.

O romance de Callado mostra um grupo de jovens idealistas e meio inconsequentes, uma delas a musa de esquerda e direita, a bela filha de um diplomata, que facilita a aproximação entre os guerrilheiros e as possíveis vítimas, num baile que lembra o último da ilha fiscal (como bem assinala Davi Arrigucci Jr. no posfácio). Os personagens do corpo diplomático, alguns alienados e fúteis, outros com a cara golpista também típica, fazem o contraponto entre os dois lados.

Apesar dos tropeços iniciais, insisti na leitura e acho que valeu a pena, por ser um retrato de época precioso, com estilo diferente e bem característico de um Brasil que vivi na minha juventude - e que felizmente se abriu para a democracia.

Beijins!

Clara Arreguy, domingo, dezembro 07, 2014. 0 comentário(s).

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Ele é o cara

O romance "O Brasil", de Mino Carta (Record), tem título pretensioso, mas cumpre tudo que promete - como sói acontecer com Mino Carta, o grande nome do jornalismo brasileiro, um cara sério, independente, comprometido com o país e com seu povo, uma raridade na nossa profissão.

A estrutura escolhida por Mino Carta usa um recurso que muito me agrada: misturar ficção com realidade. Como fio condutor, acompanhamos a história de um jornalista em início de carreira, Abukir, um profissional jovem e talentoso, que procura seu espaço nas redações paulistanas e um lugar ao sol na sociedade daqueles tempos de ditadura e censura.

Entremeiam os capítulos reminiscências do próprio Mino Carta, um jornalista de ponta, que criou e dirigiu veículos como Veja, IstoÉ, Senhor, esteve em redações dos principais jornalões e privou com autoridades como o general Golbery do Couto e Silva, então ministro-chefe da Casa Civil, e Armando Falcão, tenebroso ministro da Justiça na época dos militares.

Entre a subida de Abukir na carreira, aos poucos abandonando qualquer resquício de opção ideológica, ética ou moral, e as memórias de Mino sobre episódios definidores da vida nacional, como o suicídio de Getúlio Vargas, o golpe militar, o AI-5, o assassinato de Vladimir Herzog e o surgimento de uma nova liderança política na figura de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil, de fato, desfila ante nossos olhos.

Mino Carta faz isso não apenas com conhecimento dos fatos e personagens, não apenas com posições claras e corajosas, mas com um domínio narrativo impressionante, um texto saboroso e fluente, uma leitura que não cansa - pelo contrário, absorve o leitor até a última linha.

Delicioso! Beijocas!

Clara Arreguy, sábado, dezembro 06, 2014. 0 comentário(s).

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Futebol e literatura, emoções em campo

Nada pior para um blog do que adormecer durante muito tempo. Há mais de um mês não atualizo o meu, com a desculpa - verdadeira - de que estava finalizando, e depois lançando, em BH, Brasília e Porto Alegre, meu novo filhote, o romance "Siga as setas amarelas".

Bom, passado o sufoco, tenho uma pilha de livros pra comentar. Começo pela coletânea "Entre as quatro linhas: contos sobre futebol" (Editora DSOP), organizada pelo Luiz Ruffato, que me deu a honra de citar, no texto de apresentação do livro, sobre futebol e literatura, meu primeiro romance publicado, o "Segunda Divisão".

A coletânea é muito boa, e não apenas para quem aprecia o tema - meu caso, que sou apaixonada. Quando o autor consegue captar toda a emoção envolvida no esporte, temos literatura de qualidade, e com potencial para milhares de histórias.

É o caso dos contos de alguns dos presentes neste livro, como André Sant'Anna, que compõe uma história de sua vida (ou do personagem narrador) tendo o futebol como fio condutor, numa sequência de lances apaixonantes. Um conto brilhante, o melhor do conjunto.

Mas há também o de Mário Araújo, que elege um herói, Casquinha, para tecer um belo conto. E o de Rogério Pereira, outro a reinventar um ídolo. Histórias, memórias, crônicas jornalísticas aparecem no conjunto. Há até um conto sobre uma mulher que detesta futebol e precisa ir ao campo com o namorado e os filhos dele. Casos de amor mediados - ou afastados - pela bola. E a presença de um juiz num momento crucial de sua - nada fácil - vida profissional.

Boas leituras, com certeza! Beijos!

Clara Arreguy, sexta-feira, dezembro 05, 2014. 0 comentário(s).

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