Três bons livros

Perdoem-me o tempo parada, mas estava lançando livro novo e cheia de serviço. Nesse meio tempo, ou seja, um mês, li e vi muita coisa, mas vamos tentar resumir. Começo pelos livros.

- Véspera de Lua, de Rosângela Vieira Rocha (Penalux) é uma novela essencialmente feminina, em que a personagem principal vivencia duas situações radicais, o amor por outras mulheres e um extremo mal-estar causado pela menstruação. Impossível temas mais femininos, mesmo porque dificilmente um homem elegeria como foco de um romance a TPM - sem estereótipos e com tanto conhecimento de causa. A questão homossexual, para mim, diz menos da protagonista do que o medo de amar, a impossibilidade de se entregar. Rosângela escreve com delicadeza e profundidade, numa tessitura de mestra nas letras e nos sentimentos que elas carregam.

- A Mulher Vitruviana, de Edna Rezende (Penalux). Edna é irmã de Rosângela e ambas têm em comum, além do laço familiar, do texto brilhante e da editora que as publica, uma intensa capacidade de ir fundo no universo abordado em seus escritos. Apresentado como livro de ensaios, o livro de Edna me parece mais de memórias, nas quais a escritora foca o vício tabagista como fio condutor de toda a narrativa. Com erudição e amparo conceitual em várias vertentes, ela mergulha na relação com o cigarro para se contar, se mostrar, se explicar ao mundo. O texto flui com graça e profundidade e se presta ao entendimento de diversas relações de adicção, não apenas o tabagismo. Mas tem a felicidade de apontar saída, mesmo quando o sujeito não deseja em hipótese alguma abandonar a muleta que o sustenta por toda a vida. Muito boa leitura.

- O Mundo sem Anéis - 100 dias em bicicleta, de Mariana Carpanezzi (Longe). Assim como eu fiz em meu "Siga as setas amarelas", a autora narra sua aventura de pedalar pela Europa. Diferentemente de mim, no entanto, ela não ficcionaliza, mas faz um relato memorialístico sobre momentos difíceis de sua vida, quando superou uma depressão ao sair de bicicleta pela França e Espanha, num movimento compulsivo que só pararia quando não houvesse mais chão ou pernas. O relato é bom de ler, com paisagens externas e interiores com as quais o leitor se identifica, mesmo porque a dor e os desafios não têm dono. E Mariana os encara com rara coragem, numa bela lição.

Clara Arreguy, quarta-feira, março 02, 2016.

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Comments:
Obrigada, querida Clara, pelo comentário tão generoso sobre "Véspera de lua". Opiniões como a sua nos ajudam a continuar a lutar com as palavras. Um grande abraço.
 
Eu que agradeço, Rosângela! Pelo belo livro e pela amizade.
 
Uau, Clarita, é uma honra ser citada aqui, de maneira tão eloquente! Obrigada por se lembrar!
 
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