Justo resgate de um poeta

Biografia romanceada do poeta Cruz e Souza escrita por Margarida Patriota, o livro "A lenda de João, o assinalado" (Topbooks, 304 páginas) acaba de ser lançada em Brasília e traz um importante resgate da vida de um pioneiro do simbolismo brasileiro. Mais que isso, mergulha na existência duramente sofrida por um personagem dos mais marcantes na história das letras nacionais.

João da Cruz nasceu filho de escravos na ilha que hoje chamamos de Florianópolis, apenas uma vila naqueles idos dos anos 1860. Da mulher que o educou, ganhou o sobrenome Souza e muito mais: cultura, educação, amor à literatura e gosto pelos versos. Desde criança revelou talento e sensibilidade, mas o estigma dificultaria tudo em sua vida, tanto na cidade onde nasceu quanto no Rio de Janeiro, para onde se transferiu.

Renegado pela origem social e racial, foi ousado em apresentar o novo em sua poesia, contrariando o parnasianismo vigente, mas angariando seguidores e amigos que não o deixaram só. Após a abolição da escravatura, trabalhou em jornais e repartições, publicou livros, mas nunca obteve o merecido reconhecimento.

Após se casar com uma mulher de formação semelhante à sua - culta, apesar de filha de escravos -. sofreu graves problemas de saúde na família: a mulher enlouqueceu, ele, com parcos rendimentos, teve que cuidar sozinho dos três filhos, o menor ainda bebê. Quando ela finalmente melhorou do surto e voltou à razão, engravidando do quarto filho, foi a vez de ele ser vitimado pela tuberculose, que o matou antes do nascimento do caçula.

A história de Cruz e Souza é triste, pungente, e Margarida Patriota usa das imagens e do estilo do autor para compor uma narrativa densa à altura do homenageado. Poucas são as citações de sua obra, mas a curiosidade por ela só cresce diante da leitura de uma vida tão sofrida, pautada pela situação política e social de um país racista na construção de uma identidade ainda hoje em luta por se afirmar.

Sem citar uma só vez a palavra escravo, a autora toca o dedo nas principais feridas que o país abriu há 500 anos e batalha por superar, contra ideologias e resistências sutis ou escancaradas. Ser assinalado, no Brasil do século XIX, XX ou XXI, dá tanto orgulho quanto combatividade. A guerra ainda não acabou.

Clara Arreguy, terça-feira, dezembro 18, 2012.

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