2 livros de viagem

Já tem um tempo que li, mas estava esperando um lançamento em Brasília para fazer um comentário. Não houve, lá vai: Mochileiros nos anos de chumbo, de Márcio Godinho e Sérgio Aspahan, conta a aventura que esses dois queridos amigos empreenderam pelo Brasil profundo em plena ditadura militar. Sem dinheiro para uma viagem internacional que haviam planejado, resolveram, ainda calouros da universidade, em 1976, conhecer um pouco mais o próprio país.

E o fizeram como bons estudantes duros: muita carona, alguns ônibus, trens, barcos, em situações imprevisíveis, passando apertos, mas achando solução pra tudo, principalmente pela boa vontade generalizada que só quem viaja sabe que existe. Saindo de Belo Horizonte, foram subindo para o norte do estado e do país, aproveitando para vender assinaturas do jornal Movimento, na época uma das poucas vozes que havia a enfrentar a censura e a violência do regime autoritário.

Narrado a duas vozes, o relato é uma delícia. Revisita, em textos e fotos, um tempo e uma condição que o Brasil, com muito esforço, vem superando desde a redemocratização e com o aprofundamento da nossa democracia. Conta história, lembra fatos, personagens e lugares, numa deliciosa viagem no tempo e nas paisagens do nosso país.

O outro livro de viagem interessante que acabo de ler é A Improvável Jornada de Harold Fry, da inglesa Rachel Joyce (Suma de Letras). O personagem que dá nome ao romance vive quieto desde a aposentadoria até receber uma carta de antiga colega de trabalho se despedindo, pois está com um câncer terminal. Seguindo um impulso inesperado, Harold sai para pôr uma carta no correio para a amiga, mas continua a andar em direção à casa de repouso onde ela vive. Detalhe: ele mora no sul da Inglaterra e ela, no norte.

A caminhada aparentemente sem sentido de Harold mexe com sua mulher, com seu casamento, com suas próprias lembranças de uma vida cheia de rejeição e culpa. A narrativa alterna as dores do passado com as agruras da viagem, que acaba por chamar a atenção da mídia. De repente, Harold se torna celebridade, atraindo seguidores e aproveitadores. Enquanto isso, segue caminhando, semana após semana, na esperança de assim manter viva a esperança de salvação de sua amiga.

Um bom romance, com algumas situações previsíveis, mas de contínuo interesse.

Beijocas!

Clara Arreguy, quarta-feira, maio 14, 2014.

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