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Um drible desconcertante

Sérgio Rodrigues e eu temos algumas coisas em comum. Jornalistas, escritores, mineiros, amantes de futebol, com livros escritos sobre o tema. Não nos conhecemos, mas vai mais longe nossa afinidade. Ele nasceu em Muriaé, terra do meu pai. É amigo de amigos meus... Bom, tudo isso para elogiar "O Drible", de Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras), um dos mais belos romances que já li tendo o futebol como tema, ou melhor, como personagem.

Na verdade, o livro trata da relação familiar, do ponto de vista de Neto, filho de um famoso cronista de futebol, Murilo Filho, com quem tem uma história conturbada, violenta mesmo, desde o suicídio da mãe. Com maestria, Sérgio Rodrigues usa os lances do esporte para tecer a narrativa, a partir de jogadas memoráveis, como o drible de Pelé em Mazurkiewski, que abre o romance em descrições poéticas e profundas.

A partir da memória de Murilo Filho, um velho à procura de reaproximação com o filho, a trama enovela os principais lances e personagens do futebol com figuras fictícias que cruzam com reais, como Mário Filho, Nelson Rodrigues, João Saldanha, heróis na construção do imaginário poético e histórico da paixão maior dos brasileiros. É maravilhoso.

A trama familiar propriamente também é muito bem construída, com lances de suspense e agonia. Se Murilo Filho permite ao autor reviver as glórias dos anos 1950 e 1960, Neto é o típico jovem dos anos 1980, com sua cultura pop entranhada em tudo que minha geração viveu, dos seriados de TV ao rock Brasil.

No quesito afinidades, a parte da trama que se passa na Merequendu natal de Murilo Filho remete, obviamente, à Muriaé dos meus sonhos, inclusive literários (não foi à toa que ambientei meu Rádio Beatles na terra do meu pai). Enfim, "O Drible" me emocionou a cada página, com suas surpresas e belezas, com sua linguagem envolvente, com a solução perfeita de toda a construção do romance.

Beijos, meus leitores queridos!

Clara Arreguy, quinta-feira, abril 30, 2015.

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